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Nick Kyrgios: o anti-herói das regras não escritas do tênis

Escrevo esse texto após a partida entre o australiano Nick Kyrgios e o grego Stefanos Tsitsipas. Nesse embate tenso, o australiano venceu por 3 sets a 1, isso somente depois de muita polêmica envolvendo o comportamento dos dois atletas durante o jogo. Nick Kyrgios é uma espécie de anti-herói do tênis. Esse tipo de figura é cada vez mais comum na era do entretenimento. Afinal, quem nunca torceu ou no mínimo ficou curioso de acompanhar um personagem problemático? Um ser humano complexo, com seus belos acertos e também seus desvios de caráter? Lembro, por exemplo, da série The Sopranos e da trilogia The Godfather . Por vezes, mesmo sabendo do comportamento criminoso dos personagens, me via fascinado por eles. É o que acontece com Nick Kyrgios, o anti-herói do tênis. Num esporte elitista, que preserva o bom comportamento e o respeito a uma série de regras não escritas, Kyrgios, seja por tática ou por instinto, costuma ignorá-las. Não foi diferente nesse jogo contra Tsitsipas pelo Torn...

Crônica da virada: O carinho sufocante de um gato

Portas fechadas, todos saíram. Acordo nesse último dia do ano como se não fosse um dia especial, isto é, um dia que marca o encerramento de mais uma etapa nas nossas vidas. Mas a bem da verdade, se quisermos ser preciosistas (e eu adoro ser esse tipo de pessoa), hoje é mesmo um dia qualquer. Aliás, a noção de dia, mês, ano, virada de ano... É tudo uma mera convenção que criamos para suportar nossa curta estadia por aqui. Niilista, não? Eu já fui muito esse tipo de pessoa. Atualmente, bem menos. Ser do contra, aprofundar o olhar para tudo que se observa quase sempre soa pedante e se torna extremamente cansativo. Mas isso não deveria vir ao caso, perdoem essa enorme digressão. O que vem ao caso é que acordei hoje pela manhã e, como estava sozinho, percebi que não havia motivo para me levantar. Ledo engano! Do lado de fora um morador recém-chegado estava ilhado. Trata-se de um gato que passou a compartilhar o espaço conosco há apenas duas semanas. Ele andou envolta da casa miando (quase g...

Artigo de opinião: Retrocedemos

A pandemia de Covid-19 chegou ao Brasil em março de 2020 e continua nos afetando até os dias atuais. No início, algumas pessoas acreditavam que iríamos aprender com a doença e nos tornar pessoas melhores. Contudo, na minha visão, isso não ocorreu. Pelo contrário, no contexto da pandemia, vimos muitas demonstrações de egoísmo, de ignorância e de maldade humana. Apesar da distribuição do auxílio emergencial e da doação de cestas básicas aos mais pobres durante o processo de agravamento da Covid-19, essas ações foram insuficientes e não conseguiram impedir o aumento da pobreza no Brasil. De acordo com dados do economista Daniel Duque, da Fundação Getulio Vargas (FGV), entre 2019 e 2021, a pobreza cresceu em 24 das 27 unidades da federação. Além disso, mesmo o Coronavírus causando a morte de milhares de pessoas, vários indivíduos e até mesmo governantes políticos se utilizaram de discursos negacionistas para contestar o distanciamento social, o uso de máscara e a vacinação. Em relação a es...

A vila que habita em nós: uma triste premonição

Hoje pela manhã, pouco depois de ter acordado, ouvi um radialista local falando sobre a rebelião que havia ocorrido no maior presídio aqui do Rio Grande do Norte. Ele era taxativo em suas análises: falta leis mais rigorasas, falta polícia melhor equipada, há excesso de direitos humanos e regras obsoletas impedem que os pais coloquem seus filhos desde cedo para trabalhar. Por fim, concluiu de forma assertiva dizendo-se a favor dos militares no poder. Confesso que pensei em mandar uma mensagem para ele, pedir que ao menos lesse um pouco de história. Especialmente dos recentes anos 60 e 70, quando os militares chegaram ao poder para "salvar" o país da violência e da corrupção, mas acabaram impondo uma ditadura autoritária que durou mais de duas décadas. Porém, desisti. Talvez ele, homem de bem, não compreendesse minhas honestas intenções. Nisso, refleti sobre o que leva tantas pessoas a, assim como ele, pensarem dessa maneira. Falta de educação consistente? Medo irrefletido da v...

A História sem Fim: uma lição sobre a esperança

Como é que dizem mesmo? Faça do limão uma limonada! Esse período de isolamento social, apesar de todos os problemas, está sendo tão rico. Nele, descobri o filme  A História sem Fim (The NeverEnding Story, 1984). A narrativa é sobre um lugar, chamado Fantasia, que está sendo destruído pelo Nada. Num plano maior tem um menino chamado Bastian escondido num porão da escola lendo essa história e torcendo pelo protagonista. Até que ele próprio se torna parte da história, leitor ativo que embarca no enredo e encara de frente os seus traumas. Enfim, a história é um deleite para quem ama literatura, cinema e metalinguagem. É também um lembrete para que nunca esqueçamos de ser crianças, de imaginar e criar um mundo só nosso. E tem um diálogo próximo do final que mostra bem os perigos de não fazer isso. " Atreyu: Então, por que Fantasia está morrendo? Gmork: Porque as pessoas começaram a perder as esperanças e a esquecer seus Sonhos. E o Nada fica cada vez mais forte. Atreyu: E o que é o N...

Mossane: uma imersão crítica na cultura africana

O filme Mossane (1996), de Safi Faye, retrata a vida de uma adolescente de 14 anos numa vila pouco povoada do Senegal. Mossane é apaixonada por Fara, um estudante pobre que retornou ao vilarejo após a deflagração de uma greve em sua universidade. Porém, ela foi prometida em casamento pelos pais a Diogoye, um homem que imigrou para França muitos anos atrás. Assim, a história de Mossane é a história do enfrentamento entre o desejo pessoal e as amarras da tradição familiar. O final da película, com a morte da protagonista, representa um cenário de dilaceramento completo, uma vez que todos perdem nesse enfrentamento ocorrido. Entre os momentos mais relevantes do filme, pode-se destacar a relação dos senegaleses com as doenças. Diante da enfermidade tida pelo irmão de Mossane, a família recorre a um tio curandeiro. Em seguida, entrega oferendas a uma árvore ancestral com o intuito de pedir pela saúde do jovem. Posteriormente, ao suspeitar de uma relação incestuosa entre Mossane e seu irmão,...

Kapgang: drama dinamarquês reflete sobre o amadurecimento diante da morte

Tenho um interesse muito especial por filmes que tratam do processo de amadurecimento experienciado por todos nós ainda nos primeiros anos de vida, os chamados coming of age . Por isso, foi com grande alegria que descobri recentemente Kapgang (Marcha Atlética, 2014), uma pequena joia cinematográfica escondida entre as listas infindáveis feitas por cinéfilos. Esse filme me lembrou bastante Du er Ikke Alene (1978), outra produção dinamarquesa que aborda a infância e a juventude a partir de uma perspectiva profundamente emotiva e realista. Inicialmente, é preciso dizer que o filme dinamarquês Kapgang é baseado num romance autobiográfico publicado em 2011 por Morten Kirkskov. Tive a curiosidade de pesquisar sobre o livro e, aparentemente, ele não recebeu traduções para outros países. Isso é realmente uma pena, pois penso que essa história merece ser contada em diversos idiomas e conhecida por um público maior. Em relação ao filme, logo no seu início, vemos o pequeno Martin (Villads Boye)...