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Mostrando postagens com o rótulo Romance

O fantasma de Buñuel: juventude e ditadura na obra de Maria José Silveira

Entre os romances contemporâneos que se propuseram a tematizar os anos de ditadura civil-militar e suas consequências, o romance O fantasma de Buñuel (2004), da autora goiana Maria José Silveira, é inegavelmente um dos mais representativos. A narrativa foca seu olhar em um grupo de cinco jovens que estudava na UnB e tinha nos filmes de Luis Buñuel uma paixão em comum. Cada um dos jovens é focalizado em uma das partes da narrativa e suas reflexões são feitas a partir de épocas distintas, conforme podemos perceber já no título dessas partes: “1968 - Edu: A noite do princípio”, “1978 - Tadeu: Os arautos negros”, “1988 - Dina: O clico das águas”, “1998 - Tonho: As metamorfoses” e “2003 - Esmeralda: A manhã do fim”. É curioso observar como, ao longo da narrativa, o foco em um dos personagens vai ajudando o leitor a ter uma visão mais completa dos demais. Isso porque, mesmo a obra alternando entre narradores de primeira pessoa (os jovens) e um narrador de terceira pessoa (onisciente)...

As Meninas: iniciando a leitura do romance de Lygia Fagundes Telles

Escrevi as anotações abaixo enquanto lia pela primeira vez à obra As meninas (1973), de Lygia Fagundes Telles. O resultado é uma espécie de diário de leitura que comenta a primeira das 12 partes que formam o romance. Curiosa demais essa parte um do romance. O foco narrativo fica alternando entre a primeira e a terceira pessoa. Na maior parte do tempo a narrativa é em primeira pessoa, mas ora é a personagem Lorena (apelido Lena) quem conta a história, outra ora é a personagem Lia (apelido Lião). É preciso um pouco de atenção para perceber essas alternâncias no foco narrativo. Porém, no geral, esse é um recurso muito interessante, pois permite que nós leitores vejamos as personagens sobre diversas perspectivas. Pelo que entendi as meninas moram em uma pensão dirigida por freiras. Lorena Vaz Leme e Lia de Melo Schultz são bem próximas, apesar de terem personalidades completamente diferentes. Lorena é cristã, cheia de luxos e aparentemente tem uma boa condição financeira fornecida...

The Dreamers: o destino de Matthew no romance de Gilbert Adair

Entre os filmes que marcaram minha adolescência e juventude, The Dreamers (Os sonhadores, 2003) de Bernardo Bertolucci está na minha trilogia de favoritos, juntamente com Deixa ela entrar e O leitor . O filme conta a trajetória dos gêmios Théo e Isabelle e a forte relação estabelecida entre eles e o estudante estadunidense Matthew. Tudo ocorre após a cinemateca parisiense que frequentavam ser fechada. Com os pais ausentes, os irmãos e seu novo amigo trancam-se dentro de casa e, enquanto participam de um caprichoso jogo cinéfilo e sexual, permanecem completamente indiferentes a toda a agitação social que se produzia na França de 1968. Acordados com uma pedra que invade o grande apartamento, os jovens finalmente saem pra a rua e descobrem assustados tudo que estava ocorrendo. No filme, vemos ao final o casal de gêmios se separando de Matthew em meio à confusão, pois o jovem estrangeiro não deseja participar dos atos de violência. Esse enredo cinematográfico de The Dreamers é bas...

A modernidade em Clarice Lispector: comentário sobre A paixão segundo G. H.

“Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada”, diz Clarice Lispector na abertura de um dos seus principais romances. Nesse texto, respondendo a uma questão da prova de “Tópicos da narrativa brasileira”, comento superficialmente sobre o romance A paixão segundo G. H. , de Clarice Lispector. De maneira mais específica, busco delimitar em que aspectos estruturais (personagens, tempo, enredo, espaço e narrador) essa obra quebra com os padrões convencionais da narrativa tradicional. Transcrevo, com algumas pequenas alterações, o que escrevi. É perceptível que o romance A paixão segundo G. H. , de Clarice Lispector, rompe com a tradição literária, situando-se dentro do ambiente modernista da literatura. Mas quais características presentes nessa narrativa nos permitem fazer essa afirmação? A primeira característica é a mudança no foco narrativo da história. Ao contrário dos romances tradicionais que apresentam um...

Cabo de guerra: romance de Ivone Benedetti reflete sobre a ditadura no Brasil

Doutora pela USP e tradutora reconhecida, Ivone Benedetti estreou na literatura com o romance Immaculada (2009) e com o livro de contos Tenho um cavalo alfaraz (2011). Agora, ela volta à cena literária com Cabo de guerra (2016), romance que tematiza a ditadura civil-militar brasileira. De modo crítico e realista, ela se propõe a rememorar o passado e discutir as marcas deixadas por ele e ainda presentes no Brasil atual. A narrativa conta a história de um sem-nome que não tem opinião própria nem destino definido. Ele narra sua própria história no transcorrer de três dias, os quais dividem o romance: no primeiro dia, a rememoração dedica-se prioritariamente a tratar da chegada do protagonista em São Paulo e das amizades que ele estabele com jovens de esquerda; já no segundo dia, a maior parte das lembranças é de sua atuação como infiltrado, levando informações para os militares; e no terceiro dia, por fim, o foco maior é em destacar a tentativa fracassada de reconstituir a sua ...