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Mostrando postagens com o rótulo Reflexão

Das Lehrerzimmer: uma resposta realista para o idealismo ingênuo

Sempre que aparece um filme novo na praça abordando as complexas relações que se operam dentro do ambiente escolar, me sinto compelido a assisti-lo. Não foi diferente com Das Lehrerzimmer (A Sala dos Professores, 2023), filme alemão dirigido por Ilker Çatak.  Trata-se aqui da história de Carla, uma professora de Matemática recém-chegada a uma nova escola. Diante dos roubos frequentes que ocorrem no ambiente, ela decide fazer algo a respeito com o intuito de descobrir os responsáveis. Porém, ao fazer isso, a novata descobre que o problema é bem mais profundo do que se imaginava. Confesso que por vezes, enquanto assistia, fiquei irrequieto e inconformado com as atitudes da jovem professora. De modo geral, ela transparece uma imagem de clareza e afetuosidade. Contudo, para além dessas belas qualidades, pode-se ver que seu principal problema é um idealismo ingênuo, uma crença injustificada na remissão da humanidade. Ressalte-se: não faço parte do grupo que já vaticinou o fracasso da i...

Crônica da virada: O carinho sufocante de um gato

Portas fechadas, todos saíram. Acordo nesse último dia do ano como se não fosse um dia especial, isto é, um dia que marca o encerramento de mais uma etapa nas nossas vidas. Mas a bem da verdade, se quisermos ser preciosistas (e eu adoro ser esse tipo de pessoa), hoje é mesmo um dia qualquer. Aliás, a noção de dia, mês, ano, virada de ano... É tudo uma mera convenção que criamos para suportar nossa curta estadia por aqui. Niilista, não? Eu já fui muito esse tipo de pessoa. Atualmente, bem menos. Ser do contra, aprofundar o olhar para tudo que se observa quase sempre soa pedante e se torna extremamente cansativo. Mas isso não deveria vir ao caso, perdoem essa enorme digressão. O que vem ao caso é que acordei hoje pela manhã e, como estava sozinho, percebi que não havia motivo para me levantar. Ledo engano! Do lado de fora um morador recém-chegado estava ilhado. Trata-se de um gato que passou a compartilhar o espaço conosco há apenas duas semanas. Ele andou envolta da casa miando (quase g...

A vila que habita em nós: uma triste premonição

Hoje pela manhã, pouco depois de ter acordado, ouvi um radialista local falando sobre a rebelião que havia ocorrido no maior presídio aqui do Rio Grande do Norte. Ele era taxativo em suas análises: falta leis mais rigorasas, falta polícia melhor equipada, há excesso de direitos humanos e regras obsoletas impedem que os pais coloquem seus filhos desde cedo para trabalhar. Por fim, concluiu de forma assertiva dizendo-se a favor dos militares no poder. Confesso que pensei em mandar uma mensagem para ele, pedir que ao menos lesse um pouco de história. Especialmente dos recentes anos 60 e 70, quando os militares chegaram ao poder para "salvar" o país da violência e da corrupção, mas acabaram impondo uma ditadura autoritária que durou mais de duas décadas. Porém, desisti. Talvez ele, homem de bem, não compreendesse minhas honestas intenções. Nisso, refleti sobre o que leva tantas pessoas a, assim como ele, pensarem dessa maneira. Falta de educação consistente? Medo irrefletido da v...

Utopia: conhecendo as palavras e o mundo

Descobrir o sentido de uma palavra é descobrir um mundo. Essa frase, em que pese o seu artificioso efeito, não deixa de ser verdadeira. Lembro que a palavra que melhor me fez descobrir o mundo foi "utopia". A primeira vez que ouvi falar de utopia foi num livro didático. O autor explicava que certo romance era utópico . Fui em busca da palavra e descobri que utopia é um sonho irrealizável, um estado de completa felicidade, uma quimera. Foi então que me veio a frustração, pois imaginei um mundo belo e perfeito, mas percebi que era impossível de construí-lo, uma vez que nosso mundo é naturalmente caótico. Mesmo assim, atualmente, ainda se fala muito em utopia. Diz-se que ela não é tão impossível de ser construída, que cada um de nós podemos viver nossa própria utopia. Isso deve ser verdade, pois - se a palavra utopia tem sua acepção mudada com o tempo - é porque o seu sentido é construído por cada um de nós, a cada momento.

Crônica da pandemia: A incerteza presente e o futuro sonhado

Tá, eu confesso! Nos primeiros dias após a decretação da quarentena imaginei que seria algo rápido e muito provisório. No máximo em algumas semanas, talvez um ou dois meses, tudo estaria resolvido e voltaríamos ao nosso cotidiano habitual. No entanto, eu não poderia estar mais enganado. A pandemia persiste no Brasil após quase 10 meses, o risco de um segunda onda é real e as perspectivas em torno da sonhada vacina ainda são incertas. Ao longo desse período pandêmico, a medida que fui entendo a gravidade do problema e as incertezas quanto ao futuro, busquei me adaptar a essa nova realidade e seguir em frente dentro do possível.  Porém, a bem da verdade, não sou o tipo de pessoa que consegue sempre encontrar um lado positivo nos momentos de dificuldade. Por mais que tenhamos aprendido novas habilidades, conhecido formas inovadoras de estudar e ficado mais tempo em casa com nossas famílias, estamos ainda assim vivendo um ano extremamente trágico. De acordo com os subnotificados número...

Necessitamos ter saudade: uma breve reflexão

A distância tem uma estranha capacidade de divinizar as pessoas, de tornar heróico seus atos. Em contraponto, a proximidade nos leva a humanizar as pessoas, a enxergar seus defeitos mais de perto.  É como se fosse um rosto: de longe, ele nos parece perfeito e belo, mas a medida que nos aproximamos podemos enxergar suas cicatrizes e rugas.  É da experiência que retiro esta constatação. Algumas pessoas com as quais convivi, a medida que o tempo passou, acabei esquecendo seus defeitos e deixando que a saudade idealizasse suas qualidades. Aliás, não é por outro motivo que tanto elogiamos aqueles que já se foram... Guardamos somente o que nos interessa.  Por isso, quero postular aqui uma teoria que muito me assiste: estar perto de quem amamos nem sempre é bom, às vezes precisamos nos afastar para ver melhor o contexto que nos cerca.  Quando ficamos muito próximos, acabamos não valorizando as pessoas porque tudo nos parece fácil demais. Somente quando nos colocamos a certa...

Virada de ano: balanço e perspectivas

Pensei em escrever sobre o fim de 2019 e o início de 2020 porque nessa virada de ano sinto que as coisas estão ainda mais incompletas para mim. Gostaria de falar delas sem falar delas, isto é, contar sobre coisas íntimas para mim sem expor a singularidade de cada uma. Eu sei que é complicado, mas essa é a única forma possível para mim. Nesse novo ano completo 25 anos de idade e isso significa que, fazendo uma previsão permeada de realismo e um pouco de otimismo, ainda terei meio século de vida pela frente. Isso parece muito, mas sinto que a cada ano o tempo passa mais rápido. É preciso agir! Nesse período já vivido consegui avançar com alguns sonhos importantes, mas outros permanecem em suspenso e a cada dia que passa sinto que estão mais distantes. Coisas conquistadas não me deixam mais tão feliz como antes e coisas desejadas parecem cada dia ser mais necessárias para que eu me sinta realizado. Isso meio que faz parte da natureza humana, estamos sempre em busca do novo por ...

Elogio à infância: reflexão antiga

Bom mesmo era o tempo em que os Teletubbies tinham graça. Em que eu corria na chuva sem medo de raio ou resfriado. Em que a nudez era natural e aceitável. Em que eu não precisava me preocupar com calendário, calculadora e dinheiro. Não existiam compromissos, exceto com a diversão. Eu não precisava ficar marcando o tempo, contando os dias para as férias e aos poucos me acostumando a moldar minhas ações de acordo com as expectativas dos outros. Bom mesmo era o tempo em que tudo era pureza, não havia ambição, falsidade ou inveja. Em que pensamentos impuros não perturbavam minha mente. Em que eu brincava, brigava, mas já no outro dia fazia as pazes. Em que a minha imaginação me levava sempre ao lugar certo. Em que eu não precisava ficar projetando meu futuro, mas apenas vivenciando intensamente meu presente. Mas bom mesmo era se um dia tudo isso voltasse, acho que aproveitaria mais por saber que teria fim, pois na minha infância eu não pensava no fim. Hoje sei que a infância não...

Esperando o Papai Noel: um conto autobiográfico

Era véspera de Natal e, como todos sabem, é justamente nesse dia que o Papai Noel visita as criancinhas para lhes entregar o presente tão aguardado. Eu tinha uns seis ou sete anos, não consigo lembrar muito bem. Sei apenas que estava na casa da minha avó e brincava com os seus prendedores de estender roupa. Em minhas mãos, eles se transformavam em seres poderosos, capazes de lutar contra todo o mal e, quando a situação se complicava, eles se uniam em um único corpo para poder superar a adversidade. Minhas tardes na casa de minha avó eram sempre embaladas nesse solitário mundo de guerras. Mas naquele dia 24 de dezembro, as coisas foram um pouco diferentes. Muito mais do que esperar o nascimento do menino Jesus, aguardava ansioso a vinda do Papai Noel. Esperava a chegada do bom velhinho que havia de vir ainda naquele dia, pelo menos era isso que minha mãe dissera. Ela, o meu pai e os meus avós não sabiam em que horário o Papai Noel havia de chegar, mas aguardávamos todos por sua ...