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Mostrando postagens com o rótulo Literatura

Da vida à literatura: breve reflexão sobre um dilema que cerca o escritor

Ficção autobiográfica sempre existiu. São incontáveis os escritores que se utilizaram de experiências pessoais para elaborar suas histórias. Nos últimos anos, exacerbou-se essa tendência, tendo inclusive ganhado nome próprio: autoficção. O conceito é polêmico, alvo de muitas teorizações. Mas, de modo geral, trata-se do escritor que usa episódios de sua vida para criar uma obra literária. Ainda que tenha variados graus de fidelidade factual, a identidade entre autor, narrador e personagem quase sempre pode ser observada. Dizem que essa ficção sobre si próprio é sintoma do egocentrismo contemporâneo. É uma possibilidade. Porém, tendo a crer que os escritores atuais estão falando mais sobre si porque aparentemente só é possível escrever com profundidade sobre coisas que vivemos de perto. Pessoalmente, penso nisso quando estou envolto nos meus pequenos desejos de escrever. Quando tento escrever algo realmente significativo surge um dilema em forma de pergunta. É possível escrever algo real...

Crônica da pandemia: A incerteza presente e o futuro sonhado

Tá, eu confesso! Nos primeiros dias após a decretação da quarentena imaginei que seria algo rápido e muito provisório. No máximo em algumas semanas, talvez um ou dois meses, tudo estaria resolvido e voltaríamos ao nosso cotidiano habitual. No entanto, eu não poderia estar mais enganado. A pandemia persiste no Brasil após quase 10 meses, o risco de um segunda onda é real e as perspectivas em torno da sonhada vacina ainda são incertas. Ao longo desse período pandêmico, a medida que fui entendo a gravidade do problema e as incertezas quanto ao futuro, busquei me adaptar a essa nova realidade e seguir em frente dentro do possível.  Porém, a bem da verdade, não sou o tipo de pessoa que consegue sempre encontrar um lado positivo nos momentos de dificuldade. Por mais que tenhamos aprendido novas habilidades, conhecido formas inovadoras de estudar e ficado mais tempo em casa com nossas famílias, estamos ainda assim vivendo um ano extremamente trágico. De acordo com os subnotificados número...

Eu, a leitura e a escrita: meus encontros com a ficção

Como venho de uma família humilde e com poucas condições financeiras, o meu acesso a leitura ocorreu tardiamente. Lembro que os meus familiares, especialmente a minha mãe e a minha avó, sempre me incentivaram a estudar. Por isso, mesmo não tendo quase nenhuma formação escolar, elas tiveram a preocupação de me colocar na escola o mais cedo possível. Porém, como não havia livros na minha casa, a leitura nos meus primeiros anos se resumiu aos textos que os professores disponibilizavam por meio de cópias no quadro-negro. Somente na quarta série do Ensino Fundamental foi que ocorreu o meu primeiro encontro mais significativo com a leitura. Lembro-me bem do dia no qual a escola entregou para cada aluno uma coleção com cinco livros de diferentes gêneros (conto, poesia, novela, peça teatral e clássico adaptado). Mesmo tendo passado tantos anos, também me recordo de ter recebido essa coleção numa pequena caixa e de ter ficado extremamente animado com a possibilidade de ler tantas obras interess...

A nova ordem: destrinchando a distopia brasileira de Kucinski

O romance A nova ordem (2019), de Bernardo Kucinski, é resultado direto da ascensão da extrema-direita no Brasil. A obra se utiliza da distopia para apresentar o país num futuro próximo se tornando uma ditadura governada por ideais militares e teocráticos. Nesse contexto, a narrativa passeia entre o absurdo e a realidade palpável, levando o leitor a perceber no seu cotidiano o prenúncio de dias catastróficos. É como se Kucinski nos dissesse: tudo isso não pode acontecer, mas já está acontecendo. Logo nas duas epígrafes iniciais, de Aldous Huxley e George Orwell, o leitor é colocado em contato com reflexões acerca da servidão na qual vivem as massas oprimidas. Isso serve de preparação para a realidade distópica que se avizinha. Nos parágrafos a seguir irei apresentar brevemente o que se encontra em cada um dos 22 capítulos que compõem o mais novo livro de Kucinski.  I. “A nova ordem proclama seu advento. O fechamento das universidades e a morte do pensamento crítico”: ne...

O fantasma de Buñuel: juventude e ditadura na obra de Maria José Silveira

Entre os romances contemporâneos que se propuseram a tematizar os anos de ditadura civil-militar e suas consequências, o romance O fantasma de Buñuel (2004), da autora goiana Maria José Silveira, é inegavelmente um dos mais representativos. A narrativa foca seu olhar em um grupo de cinco jovens que estudava na UnB e tinha nos filmes de Luis Buñuel uma paixão em comum. Cada um dos jovens é focalizado em uma das partes da narrativa e suas reflexões são feitas a partir de épocas distintas, conforme podemos perceber já no título dessas partes: “1968 - Edu: A noite do princípio”, “1978 - Tadeu: Os arautos negros”, “1988 - Dina: O clico das águas”, “1998 - Tonho: As metamorfoses” e “2003 - Esmeralda: A manhã do fim”. É curioso observar como, ao longo da narrativa, o foco em um dos personagens vai ajudando o leitor a ter uma visão mais completa dos demais. Isso porque, mesmo a obra alternando entre narradores de primeira pessoa (os jovens) e um narrador de terceira pessoa (onisciente)...

A modernidade em Clarice Lispector: comentário sobre A paixão segundo G. H.

“Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada”, diz Clarice Lispector na abertura de um dos seus principais romances. Nesse texto, respondendo a uma questão da prova de “Tópicos da narrativa brasileira”, comento superficialmente sobre o romance A paixão segundo G. H. , de Clarice Lispector. De maneira mais específica, busco delimitar em que aspectos estruturais (personagens, tempo, enredo, espaço e narrador) essa obra quebra com os padrões convencionais da narrativa tradicional. Transcrevo, com algumas pequenas alterações, o que escrevi. É perceptível que o romance A paixão segundo G. H. , de Clarice Lispector, rompe com a tradição literária, situando-se dentro do ambiente modernista da literatura. Mas quais características presentes nessa narrativa nos permitem fazer essa afirmação? A primeira característica é a mudança no foco narrativo da história. Ao contrário dos romances tradicionais que apresentam um...

Esperando o Papai Noel: um conto autobiográfico

Era véspera de Natal e, como todos sabem, é justamente nesse dia que o Papai Noel visita as criancinhas para lhes entregar o presente tão aguardado. Eu tinha uns seis ou sete anos, não consigo lembrar muito bem. Sei apenas que estava na casa da minha avó e brincava com os seus prendedores de estender roupa. Em minhas mãos, eles se transformavam em seres poderosos, capazes de lutar contra todo o mal e, quando a situação se complicava, eles se uniam em um único corpo para poder superar a adversidade. Minhas tardes na casa de minha avó eram sempre embaladas nesse solitário mundo de guerras. Mas naquele dia 24 de dezembro, as coisas foram um pouco diferentes. Muito mais do que esperar o nascimento do menino Jesus, aguardava ansioso a vinda do Papai Noel. Esperava a chegada do bom velhinho que havia de vir ainda naquele dia, pelo menos era isso que minha mãe dissera. Ela, o meu pai e os meus avós não sabiam em que horário o Papai Noel havia de chegar, mas aguardávamos todos por sua ...

Cabo de guerra: romance de Ivone Benedetti reflete sobre a ditadura no Brasil

Doutora pela USP e tradutora reconhecida, Ivone Benedetti estreou na literatura com o romance Immaculada (2009) e com o livro de contos Tenho um cavalo alfaraz (2011). Agora, ela volta à cena literária com Cabo de guerra (2016), romance que tematiza a ditadura civil-militar brasileira. De modo crítico e realista, ela se propõe a rememorar o passado e discutir as marcas deixadas por ele e ainda presentes no Brasil atual. A narrativa conta a história de um sem-nome que não tem opinião própria nem destino definido. Ele narra sua própria história no transcorrer de três dias, os quais dividem o romance: no primeiro dia, a rememoração dedica-se prioritariamente a tratar da chegada do protagonista em São Paulo e das amizades que ele estabele com jovens de esquerda; já no segundo dia, a maior parte das lembranças é de sua atuação como infiltrado, levando informações para os militares; e no terceiro dia, por fim, o foco maior é em destacar a tentativa fracassada de reconstituir a sua ...

Primeiros passos: sejam bem-vindos

Por algum tempo refleti sobre a possibilidade de ter um blog pessoal e eis que esse momento finalmente chegou. Não muito diferente do que ocorre com os outras pessoas que se propõem a fazer o mesmo, pretendo compartilhar nesse espaço virtual algumas ideias sobre diferentes assuntos que passam por minha cabeça. Mas porque o nome Entre o real e o inventado ? A resposta é simples: é nesse ambiente que eu vivo. Vivo entre a ficção e o realidade e muitas vezes percebo que não há grandes distinções entre esses dois lugares. Amo filmes, sou apaixonado e estudioso de literatura. Também gosto de debate político e me emociono muito assistindo diferentes esportes. É basicamente sobre coisas assim que irei escrever. O cotidiano das pessoas me atrai. Espero que essa experiência ajude no meu aprimoramento, pois não acredito em verdades absolutas. A vida para mim tem uma única função primordial: garantir tempo e espaço para que possamos aprender mais. Então, vamos lá!