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Mostrando postagens com o rótulo Ditadura

A nova ordem: destrinchando a distopia brasileira de Kucinski

O romance A nova ordem (2019), de Bernardo Kucinski, é resultado direto da ascensão da extrema-direita no Brasil. A obra se utiliza da distopia para apresentar o país num futuro próximo se tornando uma ditadura governada por ideais militares e teocráticos. Nesse contexto, a narrativa passeia entre o absurdo e a realidade palpável, levando o leitor a perceber no seu cotidiano o prenúncio de dias catastróficos. É como se Kucinski nos dissesse: tudo isso não pode acontecer, mas já está acontecendo. Logo nas duas epígrafes iniciais, de Aldous Huxley e George Orwell, o leitor é colocado em contato com reflexões acerca da servidão na qual vivem as massas oprimidas. Isso serve de preparação para a realidade distópica que se avizinha. Nos parágrafos a seguir irei apresentar brevemente o que se encontra em cada um dos 22 capítulos que compõem o mais novo livro de Kucinski.  I. “A nova ordem proclama seu advento. O fechamento das universidades e a morte do pensamento crítico”: ne...

Manifestações populares e AI-5: paranoia ou desejo incontido

O núcleo duro do governo Bolsonaro é formado por pessoas com claras inclinações autoritárias. Pouco afeitos as regras democráticas e as suas instituições, o presidente, seus filhos, a ala olavista e até os liberais da economia estão sempre produzindo falas e ações que põe em dúvida a democracia como um valor máximo. Nas últimas semanas foi a vez do filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, afirmar que, se a esquerda radicalizar, será preciso recorrer a instrumentos como o AI-5. O Ato Institucional mais duro e repressor da ditadura civil-militar também foi parar na boca do ministro da Economia Paulo Guedes, fazendo com que a sociedade se confrontasse novamente com o fantasma da ditadura.  Mas, afinal, o que leva membros do governo a citar constantemente mecanismos autoritários como o AI-5? Seria uma paranoia generalizada do governo, que se vê cercado diariamente por inimigos ameaçando tomar o poder? Ou seria um desejo incontido de, citando manifestações populares vio...

O fantasma de Buñuel: juventude e ditadura na obra de Maria José Silveira

Entre os romances contemporâneos que se propuseram a tematizar os anos de ditadura civil-militar e suas consequências, o romance O fantasma de Buñuel (2004), da autora goiana Maria José Silveira, é inegavelmente um dos mais representativos. A narrativa foca seu olhar em um grupo de cinco jovens que estudava na UnB e tinha nos filmes de Luis Buñuel uma paixão em comum. Cada um dos jovens é focalizado em uma das partes da narrativa e suas reflexões são feitas a partir de épocas distintas, conforme podemos perceber já no título dessas partes: “1968 - Edu: A noite do princípio”, “1978 - Tadeu: Os arautos negros”, “1988 - Dina: O clico das águas”, “1998 - Tonho: As metamorfoses” e “2003 - Esmeralda: A manhã do fim”. É curioso observar como, ao longo da narrativa, o foco em um dos personagens vai ajudando o leitor a ter uma visão mais completa dos demais. Isso porque, mesmo a obra alternando entre narradores de primeira pessoa (os jovens) e um narrador de terceira pessoa (onisciente)...

As Meninas: iniciando a leitura do romance de Lygia Fagundes Telles

Escrevi as anotações abaixo enquanto lia pela primeira vez à obra As meninas (1973), de Lygia Fagundes Telles. O resultado é uma espécie de diário de leitura que comenta a primeira das 12 partes que formam o romance. Curiosa demais essa parte um do romance. O foco narrativo fica alternando entre a primeira e a terceira pessoa. Na maior parte do tempo a narrativa é em primeira pessoa, mas ora é a personagem Lorena (apelido Lena) quem conta a história, outra ora é a personagem Lia (apelido Lião). É preciso um pouco de atenção para perceber essas alternâncias no foco narrativo. Porém, no geral, esse é um recurso muito interessante, pois permite que nós leitores vejamos as personagens sobre diversas perspectivas. Pelo que entendi as meninas moram em uma pensão dirigida por freiras. Lorena Vaz Leme e Lia de Melo Schultz são bem próximas, apesar de terem personalidades completamente diferentes. Lorena é cristã, cheia de luxos e aparentemente tem uma boa condição financeira fornecida...

Cabo de guerra: romance de Ivone Benedetti reflete sobre a ditadura no Brasil

Doutora pela USP e tradutora reconhecida, Ivone Benedetti estreou na literatura com o romance Immaculada (2009) e com o livro de contos Tenho um cavalo alfaraz (2011). Agora, ela volta à cena literária com Cabo de guerra (2016), romance que tematiza a ditadura civil-militar brasileira. De modo crítico e realista, ela se propõe a rememorar o passado e discutir as marcas deixadas por ele e ainda presentes no Brasil atual. A narrativa conta a história de um sem-nome que não tem opinião própria nem destino definido. Ele narra sua própria história no transcorrer de três dias, os quais dividem o romance: no primeiro dia, a rememoração dedica-se prioritariamente a tratar da chegada do protagonista em São Paulo e das amizades que ele estabele com jovens de esquerda; já no segundo dia, a maior parte das lembranças é de sua atuação como infiltrado, levando informações para os militares; e no terceiro dia, por fim, o foco maior é em destacar a tentativa fracassada de reconstituir a sua ...