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Mostrando postagens com o rótulo Filmes

Das Lehrerzimmer: uma resposta realista para o idealismo ingênuo

Sempre que aparece um filme novo na praça abordando as complexas relações que se operam dentro do ambiente escolar, me sinto compelido a assisti-lo. Não foi diferente com Das Lehrerzimmer (A Sala dos Professores, 2023), filme alemão dirigido por Ilker Çatak.  Trata-se aqui da história de Carla, uma professora de Matemática recém-chegada a uma nova escola. Diante dos roubos frequentes que ocorrem no ambiente, ela decide fazer algo a respeito com o intuito de descobrir os responsáveis. Porém, ao fazer isso, a novata descobre que o problema é bem mais profundo do que se imaginava. Confesso que por vezes, enquanto assistia, fiquei irrequieto e inconformado com as atitudes da jovem professora. De modo geral, ela transparece uma imagem de clareza e afetuosidade. Contudo, para além dessas belas qualidades, pode-se ver que seu principal problema é um idealismo ingênuo, uma crença injustificada na remissão da humanidade. Ressalte-se: não faço parte do grupo que já vaticinou o fracasso da i...

A vila que habita em nós: uma triste premonição

Hoje pela manhã, pouco depois de ter acordado, ouvi um radialista local falando sobre a rebelião que havia ocorrido no maior presídio aqui do Rio Grande do Norte. Ele era taxativo em suas análises: falta leis mais rigorasas, falta polícia melhor equipada, há excesso de direitos humanos e regras obsoletas impedem que os pais coloquem seus filhos desde cedo para trabalhar. Por fim, concluiu de forma assertiva dizendo-se a favor dos militares no poder. Confesso que pensei em mandar uma mensagem para ele, pedir que ao menos lesse um pouco de história. Especialmente dos recentes anos 60 e 70, quando os militares chegaram ao poder para "salvar" o país da violência e da corrupção, mas acabaram impondo uma ditadura autoritária que durou mais de duas décadas. Porém, desisti. Talvez ele, homem de bem, não compreendesse minhas honestas intenções. Nisso, refleti sobre o que leva tantas pessoas a, assim como ele, pensarem dessa maneira. Falta de educação consistente? Medo irrefletido da v...

A História sem Fim: uma lição sobre a esperança

Como é que dizem mesmo? Faça do limão uma limonada! Esse período de isolamento social, apesar de todos os problemas, está sendo tão rico. Nele, descobri o filme  A História sem Fim (The NeverEnding Story, 1984). A narrativa é sobre um lugar, chamado Fantasia, que está sendo destruído pelo Nada. Num plano maior tem um menino chamado Bastian escondido num porão da escola lendo essa história e torcendo pelo protagonista. Até que ele próprio se torna parte da história, leitor ativo que embarca no enredo e encara de frente os seus traumas. Enfim, a história é um deleite para quem ama literatura, cinema e metalinguagem. É também um lembrete para que nunca esqueçamos de ser crianças, de imaginar e criar um mundo só nosso. E tem um diálogo próximo do final que mostra bem os perigos de não fazer isso. " Atreyu: Então, por que Fantasia está morrendo? Gmork: Porque as pessoas começaram a perder as esperanças e a esquecer seus Sonhos. E o Nada fica cada vez mais forte. Atreyu: E o que é o N...

Mossane: uma imersão crítica na cultura africana

O filme Mossane (1996), de Safi Faye, retrata a vida de uma adolescente de 14 anos numa vila pouco povoada do Senegal. Mossane é apaixonada por Fara, um estudante pobre que retornou ao vilarejo após a deflagração de uma greve em sua universidade. Porém, ela foi prometida em casamento pelos pais a Diogoye, um homem que imigrou para França muitos anos atrás. Assim, a história de Mossane é a história do enfrentamento entre o desejo pessoal e as amarras da tradição familiar. O final da película, com a morte da protagonista, representa um cenário de dilaceramento completo, uma vez que todos perdem nesse enfrentamento ocorrido. Entre os momentos mais relevantes do filme, pode-se destacar a relação dos senegaleses com as doenças. Diante da enfermidade tida pelo irmão de Mossane, a família recorre a um tio curandeiro. Em seguida, entrega oferendas a uma árvore ancestral com o intuito de pedir pela saúde do jovem. Posteriormente, ao suspeitar de uma relação incestuosa entre Mossane e seu irmão,...

Kapgang: drama dinamarquês reflete sobre o amadurecimento diante da morte

Tenho um interesse muito especial por filmes que tratam do processo de amadurecimento experienciado por todos nós ainda nos primeiros anos de vida, os chamados coming of age . Por isso, foi com grande alegria que descobri recentemente Kapgang (Marcha Atlética, 2014), uma pequena joia cinematográfica escondida entre as listas infindáveis feitas por cinéfilos. Esse filme me lembrou bastante Du er Ikke Alene (1978), outra produção dinamarquesa que aborda a infância e a juventude a partir de uma perspectiva profundamente emotiva e realista. Inicialmente, é preciso dizer que o filme dinamarquês Kapgang é baseado num romance autobiográfico publicado em 2011 por Morten Kirkskov. Tive a curiosidade de pesquisar sobre o livro e, aparentemente, ele não recebeu traduções para outros países. Isso é realmente uma pena, pois penso que essa história merece ser contada em diversos idiomas e conhecida por um público maior. Em relação ao filme, logo no seu início, vemos o pequeno Martin (Villads Boye)...

Fanfic sobre Deixa Ela Entrar: capítulo A necessidade

Sinopse: Algumas coisas precisam ser ditas. A primeira delas é que Eli e Oskar são dois adolescentes e se amam. A segunda é que Eli é uma vampira e por isso precisa de sangue para sobreviver. Por último, ainda é preciso contar que Oskar fugiu de casa e agora acompanha Eli, ajudando-a a sobreviver. Essa história, portanto, versa sobre a vida dos dois adolescentes e discute até que ponto nós podemos ir para salvar a vida daqueles que amamos. Não sei se posso dizer que Oskar e Eli são namorados. O que sei é que eles são bem mais que amigos. Você deve estar se perguntando como um humano pode nutrir sentimentos por uma vampira. Bem, há pouco tempo Oskar vivia muito sozinho, sofria perseguições na escola e se sentia dividido entre o pai e a mãe que são separados. Até que um dia Eli veio morar num apartamento próximo ao de Oskar. A empatia foi grande entre os dois, começaram a se ver entre a neve e o frio do pátio. Algo mágico delineou-se entre eles.  Com o tempo, Oskar foi descobrindo qu...

Utoya: um plano-sequência sobre o terrorismo na Noruega

A Noruega, assim como os demais países nórdicos, costumeiramente é lembrada por causa de sua qualidade de vida e de sua democracia consolidada. Porém, recentemente, o terrorismo que deixou em alerta toda a Europa, também abalou fortemente o cotidiano norueguês.  O filme Utoya (2018) retrata justamente o ataque terrorista ocorrido em 22 de julho de 2011. Primeiramente, uma bomba foi explodida no centro de Oslo e, em seguida, um terrorista atacou a tiros centenas de jovens que estavam na ilha de Utoya participando de um evento do Partido Trabalhista. O brilhantismo desse filme está no uso que ele faz do plano-sequência. Durante quase toda a ação não perdemos de vista a jovem Kaja (Andrea Berntzen). Ela sonha em ser eleita e se tornar parlamentar. Mas em Utoya, além de fugir do terrorista que promove o ataque, Kaja procura por sua irmã Emilie e tenta ajudar algumas pessoas que encontra pelo caminho.  Já no primeiro momento em que ela surge na tela, sugere-se uma c...

A casa de Alice: um microcosmo do Brasil contemporâneo

A casa de Alice (2007), enquanto metonímia do Brasil onde vivemos, está longe de ser uma maravilha. É essa a constatação a que chegamos ao assistir o primeiro longa-metragem de Chico Teixeira, diretor também de Ausência (2015). Durante cerca de 90 minutos conhecemos a vida da manicure Alice, de seu marido taxista Lindomar, dos seus filhos Lucas, Edinho e Júnior, além da avó materna Jacira. Todos vivem numa mesma casa e demonstram uma crescente omissão em relação aos problemas dos outros. Enquanto cuida dos afazeres domésticos, Jacira percebe tudo que transcorre no seio familiar, mesmo tendo grave problema de visão. Desde a traição de Lindomar com uma garota da vizinhança, passando pela prostituição do filho mais velho, Lucas, até a latência sexual que se estabelece entre este e o filho mais novo, Júnior. Lucas, contrariando o estereótipo de militar, se prostitui em relações homossexuais e, ao mesmo tempo, demonstra muita proximidade com o irmão mais novo. Ele tem ciúmes da...

The Dreamers: o destino de Matthew no romance de Gilbert Adair

Entre os filmes que marcaram minha adolescência e juventude, The Dreamers (Os sonhadores, 2003) de Bernardo Bertolucci está na minha trilogia de favoritos, juntamente com Deixa ela entrar e O leitor . O filme conta a trajetória dos gêmios Théo e Isabelle e a forte relação estabelecida entre eles e o estudante estadunidense Matthew. Tudo ocorre após a cinemateca parisiense que frequentavam ser fechada. Com os pais ausentes, os irmãos e seu novo amigo trancam-se dentro de casa e, enquanto participam de um caprichoso jogo cinéfilo e sexual, permanecem completamente indiferentes a toda a agitação social que se produzia na França de 1968. Acordados com uma pedra que invade o grande apartamento, os jovens finalmente saem pra a rua e descobrem assustados tudo que estava ocorrendo. No filme, vemos ao final o casal de gêmios se separando de Matthew em meio à confusão, pois o jovem estrangeiro não deseja participar dos atos de violência. Esse enredo cinematográfico de The Dreamers é bas...

I Origins: de quantos sentidos podemos ser feitos

Há uma cena no filme I Origins (O universo no olhar, 2014) que me produziu algumas reflexões sobre a relação entre ciência e religião. Sofi, uma jovem profundamente espiritualizada, conversa com seu namorado Ian, um cientista ateu que estuda os olhos, sobre as diferentes capacidades de percepção. Segue abaixo o diálogo na íntegra entre esse casal que protagoniza o filme: Ian : O que foi? Eu sei que algo está errado, então... Sofi : Você me deixa todo dia para torturar minhoquinhas? Ian : Não estamos torturando minhocas, Sofi. Se te interessa, estamos modificando organismos. Nesse caso, são minhocas para terem visão. Sofi : Pode fazer minhocas cegas enxergarem? Ian : Mais ou menos. Podemos agora, talvez. Sofi : Acha que é uma boa ideia? Ian : Acha que é uma má ideia? Sofi : Acho que é perigoso brincar de Deus. Ian : Sofi, eu acredito em prova. Não há nenhuma prova que há algum espírito mágico... Que é invisível, vivendo acima de nós, bem em cima de nós. Sofi : ...

Let the right one in: os dez anos de um filme inesquecível

“Tinha que ir e viver ou ficar e morrer”, escreve Eli em certo momento de Let the right one in . O filme, cujo título original sueco é Lat den ratte komma in (Deixa ela entrar), foi exibido pela primeira vez em 26 de janeiro de 2008, durante o festival de cinema de Gotemburgo. A história, baseada no livro homônimo do escritor John Ajvide Lindqvist, também serviu de base para o remake estadunidense Let me In (2010) e para diversas adaptações teatrais. Além disso, recentemente, a TNT tentou adaptar o enredo para um seriado, mas a produção foi cancelada após o piloto. Entretanto, deixemos um pouco de lado esses detalhes e foquemos nossa atenção na gélida versão cinematográfica sueca. Hoje, ela completa 10 anos desde que foi exibida pela primeira vez, por isso gostaria de falar um pouco sobre os motivos que fazem essa obra ser tão inesquecível. Na verdade, acho que nem sei explicar muito bem o quanto esse filme marcou a minha vida, tornando-se o meu favorito. Quando o assisti pela ...

Call me by your name: um questionamento sobre o amor

O cinema com temática homossexual vem crescendo nos últimos anos. Prova disso é que na última edição do Oscar tivemos Moonlight escolhido como melhor filme. Seguindo esse ritmo, nessa nova temporada do cinema, filmes com essa temática voltaram a ganhar força. Beach rats venceu melhor direção em Sundance e, agora, Call me by your name (Me chame pelo seu nome) vem conquistando fãs pelo mundo e sendo bem cotado nos festivais. O filme do diretor Luca Guadagnino é inspirado em um livro de André Aciman. A história, que se passa nos anos 80, é ambientada no interior da Itália durante uma temporada de veraneio. Elio (Timothée Chalamet) é um jovem garoto que se apaixona pelo acadêmico Oliver (Armie Hammer). Situado numa bela paisagem e com uma trilha sonora muito sensível, o longa encanta não apenas pela ousadia de tematizar uma relação homoafetiva entre pessoas com idades tão dispares, mas também pela maneira provocante como o faz. Nesse particular, me refiro especialmente a duas seq...

Primeiros passos: sejam bem-vindos

Por algum tempo refleti sobre a possibilidade de ter um blog pessoal e eis que esse momento finalmente chegou. Não muito diferente do que ocorre com os outras pessoas que se propõem a fazer o mesmo, pretendo compartilhar nesse espaço virtual algumas ideias sobre diferentes assuntos que passam por minha cabeça. Mas porque o nome Entre o real e o inventado ? A resposta é simples: é nesse ambiente que eu vivo. Vivo entre a ficção e o realidade e muitas vezes percebo que não há grandes distinções entre esses dois lugares. Amo filmes, sou apaixonado e estudioso de literatura. Também gosto de debate político e me emociono muito assistindo diferentes esportes. É basicamente sobre coisas assim que irei escrever. O cotidiano das pessoas me atrai. Espero que essa experiência ajude no meu aprimoramento, pois não acredito em verdades absolutas. A vida para mim tem uma única função primordial: garantir tempo e espaço para que possamos aprender mais. Então, vamos lá!