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Mostrando postagens com o rótulo Política

A vila que habita em nós: uma triste premonição

Hoje pela manhã, pouco depois de ter acordado, ouvi um radialista local falando sobre a rebelião que havia ocorrido no maior presídio aqui do Rio Grande do Norte. Ele era taxativo em suas análises: falta leis mais rigorasas, falta polícia melhor equipada, há excesso de direitos humanos e regras obsoletas impedem que os pais coloquem seus filhos desde cedo para trabalhar. Por fim, concluiu de forma assertiva dizendo-se a favor dos militares no poder. Confesso que pensei em mandar uma mensagem para ele, pedir que ao menos lesse um pouco de história. Especialmente dos recentes anos 60 e 70, quando os militares chegaram ao poder para "salvar" o país da violência e da corrupção, mas acabaram impondo uma ditadura autoritária que durou mais de duas décadas. Porém, desisti. Talvez ele, homem de bem, não compreendesse minhas honestas intenções. Nisso, refleti sobre o que leva tantas pessoas a, assim como ele, pensarem dessa maneira. Falta de educação consistente? Medo irrefletido da v...

Tribunal Superior Eleitoral: o julgamento e a arte

O ministro Gilmar Mendes, ao votar pela absolvição da chapa Dilma-Temer em 2017, lembrou Américo Pisca-Pisca, personagem de Monteiro Lobato em O reformador do mundo . Américo tinha por hábito colocar defeito nas coisas, queria transformar o mundo conforme entendia ser necessário. Entretanto, quando percebe por meio de um sonho que as mudanças que deseja podem levá-lo a um final negativo, ele decide ser melhor que “Fique tudo como está, que está tudo muito bem”. Assim, para Gilmar não se pode mudar as “leis naturais” da política, pois se corre o risco de que as coisas fiquem piores do que estão. Ele adota uma posição conservadora, se negando a reformar o mundo e escolhendo por mantê-lo exatamente como está. O que ele espera é que adotemos a visão de que as atuais regras políticas foram criadas por certa mente superior a quem não nos cabe se opor. Em contraponto, a ministra Rosa Weber, ao votar pela cassação da chapa, prefere a canção de Torquato Neto, interpretada pela voz de Elis Regi...

A nova ordem: destrinchando a distopia brasileira de Kucinski

O romance A nova ordem (2019), de Bernardo Kucinski, é resultado direto da ascensão da extrema-direita no Brasil. A obra se utiliza da distopia para apresentar o país num futuro próximo se tornando uma ditadura governada por ideais militares e teocráticos. Nesse contexto, a narrativa passeia entre o absurdo e a realidade palpável, levando o leitor a perceber no seu cotidiano o prenúncio de dias catastróficos. É como se Kucinski nos dissesse: tudo isso não pode acontecer, mas já está acontecendo. Logo nas duas epígrafes iniciais, de Aldous Huxley e George Orwell, o leitor é colocado em contato com reflexões acerca da servidão na qual vivem as massas oprimidas. Isso serve de preparação para a realidade distópica que se avizinha. Nos parágrafos a seguir irei apresentar brevemente o que se encontra em cada um dos 22 capítulos que compõem o mais novo livro de Kucinski.  I. “A nova ordem proclama seu advento. O fechamento das universidades e a morte do pensamento crítico”: ne...

Manifestações populares e AI-5: paranoia ou desejo incontido

O núcleo duro do governo Bolsonaro é formado por pessoas com claras inclinações autoritárias. Pouco afeitos as regras democráticas e as suas instituições, o presidente, seus filhos, a ala olavista e até os liberais da economia estão sempre produzindo falas e ações que põe em dúvida a democracia como um valor máximo. Nas últimas semanas foi a vez do filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, afirmar que, se a esquerda radicalizar, será preciso recorrer a instrumentos como o AI-5. O Ato Institucional mais duro e repressor da ditadura civil-militar também foi parar na boca do ministro da Economia Paulo Guedes, fazendo com que a sociedade se confrontasse novamente com o fantasma da ditadura.  Mas, afinal, o que leva membros do governo a citar constantemente mecanismos autoritários como o AI-5? Seria uma paranoia generalizada do governo, que se vê cercado diariamente por inimigos ameaçando tomar o poder? Ou seria um desejo incontido de, citando manifestações populares vio...