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Espionagem no futebol: limites e consequências

A ESPN Brasil fez uma reportagem mostrando que o Grêmio tinha um funcionário responsável por espionar os adversários. Ele usava até drone para gravar imagens dos treinos fechados.

Primeira reação: a torcida do Grêmio e um representante do clube dizem que se trata de uma matéria fraca, vazia, apenas fruto da perseguição da impressa do sudeste tentando atrapalhar o clube na final da Libertadores 2017. 

Segunda reação: Renato Gaúcho, treinador do time, admite o uso desse expediente, mas justifica dizendo que todos os clubes fazem isso, que a espionagem é antiga, que futebol é uma guerra e que o mundo é dos mais espertos. 

Qualquer semelhança com nosso cotidiano político e social não é mera coincidência. O futebol é apenas mais um lugar onde se vê a cultura do brasileiro. A melhor defesa é sempre o ataque, mas quando ele não dá certo se recorre a generalização: já que todos fazem, eu posso.

Até onde vai o limite para conseguirmos aquilo que queremos? Vale enganar, mentir e espionar? Isso faz parte do jogo também? Não precisa de fair play? Esse caso é ilustrativo da mentalidade brasileira. Somos o país do "jeitinho" que sempre resolve as coisas pelos bastidores.

No futebol e na vida, o Brasil mostra diariamente que não há limites, ética ou bom senso. Vivemos um vale tudo e só vence quem for mais "esperto". Talvez seja mesmo, mas se o mundo é desses espertos está explicado porque, quase sempre, não me sinto parte dele.

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