Curiosa a capacidade do Twitter em pautar o debate público brasileiro. Apesar de ser uma rede social menor que o Facebook, o Instagram e o WhatsApp, o Twitter concentra boa parte da massa opinativa do país (políticos, jornalistas, artistas, ativistas, etc). Com isso, quase que diariamente surgem discussões das mais diversas nesse palco virtual. Seguindo a tendência dos tempos líquidos em que vivemos, esses debates tem o poder de mobilizar a atenção durante dois ou três dias no máximo, sendo logo substituídos por um novo tema polêmico. Porém, o pouco tempo não impede que os debates sejam acalorados e até mesmo extremados. Pelo contrário, a necessidade urgente de abordar o tópico antes que ele não seja mais relevante é um incentivo para simplificações, acusações e trocas de insultos.
Essa contextualização inicial é apenas para que os não iniciados no Twitter compreendam o ambiente pouco aprazível no qual ocorreu o mais recente debate. Tudo começou com a escolha de uma fotografia da Gabriela Biló para compor o capa da Folha de S. Paulo na sua edição de 19 de janeiro de 2023. Por meio de uma técnica chamada de múltipla exposição, a fotojornalista sobrepôs a imagem de Lula sorridente a outra foto contendo uma vidraça danificada. Diante disso, os twitteiros passaram a discutir se a foto tinha um caráter jornalístico ou artístico, como se fosse possível separar facilmente os dois. Além disso, como a imagem selecionada não conversa diretamente com nenhuma das chamadas da capa, coube aos leitores do jornal estabelecerem suas próprias interpretações. Afinal, o que essa foto “queria dizer”?
Nesse sentido, alguns a enxergaram sob uma perspectiva positiva: Lula sorri porque escapou ileso dos ataques contra o Palácio da Alvorada em 8 de janeiro, uma semana após sua posse como presidente. No entanto, outros viram na foto um estímulo a possíveis atentados contra o atual presidente, pois ela apresenta Lula numa posição fragilizada, um alvo fácil para violência promovida pela extrema-direita. Pessoalmente, contribuo com essa discussão propondo uma leitura mais cínica. O que vejo nessa fotografia é a esperteza do presidente Lula. Ele sorri porque, além de sobreviver aos ataques contra as sedes dos três poderes, foi capaz de capitalizar isso em seu favor, aproveitando o momento para unir parlamentares, ministros do STF e governadores em torno de si. Ou seja, o sorriso de Lula pode ser interpretado como um sorriso irônico, pois temos um presidente que se utilizou de um momento de vulnerabilidade para sair mais forte politicamente.
Obviamente, a minha, assim como as demais interpretações atribuídas a foto, são apenas visões possíveis. Podemos considerar uma visão melhor do que a outra, mas isso diz mais sobre nossas posições ideológicas do que sobre a foto em si. Quem acha que uma foto tem uma única interpretação possível ainda não entendeu que arte e jornalismo não estão tão distantes. Assim como o documentário, o fotojornalismo é muito mais a exposição de um ponto de vista do que a tentativa de descrição objetiva da realidade.
Não serei disruptivo ao ponto de afirmar que jornalismo e arte estão no mesmo nível de atuação. Há distinções e o jornalismo usa critérios diferentes dos da arte para buscar a verdade. Porém, ambos são produtos humanos, portanto, manipuláveis de acordo com as muitas tendências subjetivas que compõe nossa identidade. A escolha de um instante, de um ângulo ou de uma palavra já é carregado de sentidos que alteram a realidade objetiva. Ela, em seu sentido puro, não é apreensível por nós humanos.
Por isso, longe do ambiente tóxico das redes sociais, a captura de Gabriela Biló pode ser um ótimo ponto de partida para discutirmos não o que a foto mostra sobre Lula, mas sim o que ela revela sobre a maneira como nós humanos interpretamos o mundo. Por meio dos nossos olhos filtramos a realidade e por meio de palavras, gestos e imagens expomos nossas visões sobre ela. Nada mais natural que outras pessoas, com suas próprias experiências de vida, enxerguem de forma completamente distinta. Dessa forma, antes de decretar uma interpretação unívoca para o que você vê, vale a pena adotar certa dose de ceticismo. Da mesma forma que a arte, a vida está constantemente a nos provocar: será que só pode ser isso?

Comentários
Postar um comentário