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Educação com saúde: os professores não irão trabalhar colocando vidas em risco

Nas últimas semanas, muitas pessoas comuns e até mesmo veículos de mídia têm afirmado que os professores não querem retornar as aulas presenciais porque o ensino remoto permite que eles recebam seus salários sem trabalhar. Essa visão, ancorada na desinformação e no preconceito, é completamente equivocada, uma vez que ignora algumas questões básicas.  Em primeiro lugar, o ensino remoto não é sinônimo de menos trabalho para os professores. Pelo contrário, desde que começou a pandemia do Coronavírus os professores precisaram se adaptar a essa nova realidade, sendo que o trabalho deles aumentou sensivelmente. Agora, mesmo estando em casa, eles precisam organizar planos de aula e atividades específicas para o contexto de ensino virtual. Além disso, muitos deles precisaram comprar materiais de informática e aumentar a velocidade de suas internets residenciais para conseguir dar conta das demandas geradas pelas aulas online. Somado a isso, vemos que muitos professores ampliaram suas jorna...

Eu, a leitura e a escrita: meus encontros com a ficção

Como venho de uma família humilde e com poucas condições financeiras, o meu acesso a leitura ocorreu tardiamente. Lembro que os meus familiares, especialmente a minha mãe e a minha avó, sempre me incentivaram a estudar. Por isso, mesmo não tendo quase nenhuma formação escolar, elas tiveram a preocupação de me colocar na escola o mais cedo possível. Porém, como não havia livros na minha casa, a leitura nos meus primeiros anos se resumiu aos textos que os professores disponibilizavam por meio de cópias no quadro-negro. Somente na quarta série do Ensino Fundamental foi que ocorreu o meu primeiro encontro mais significativo com a leitura. Lembro-me bem do dia no qual a escola entregou para cada aluno uma coleção com cinco livros de diferentes gêneros (conto, poesia, novela, peça teatral e clássico adaptado). Mesmo tendo passado tantos anos, também me recordo de ter recebido essa coleção numa pequena caixa e de ter ficado extremamente animado com a possibilidade de ler tantas obras interess...

Necessitamos ter saudade: uma breve reflexão

A distância tem uma estranha capacidade de divinizar as pessoas, de tornar heróico seus atos. Em contraponto, a proximidade nos leva a humanizar as pessoas, a enxergar seus defeitos mais de perto.  É como se fosse um rosto: de longe, ele nos parece perfeito e belo, mas a medida que nos aproximamos podemos enxergar suas cicatrizes e rugas.  É da experiência que retiro esta constatação. Algumas pessoas com as quais convivi, a medida que o tempo passou, acabei esquecendo seus defeitos e deixando que a saudade idealizasse suas qualidades. Aliás, não é por outro motivo que tanto elogiamos aqueles que já se foram... Guardamos somente o que nos interessa.  Por isso, quero postular aqui uma teoria que muito me assiste: estar perto de quem amamos nem sempre é bom, às vezes precisamos nos afastar para ver melhor o contexto que nos cerca.  Quando ficamos muito próximos, acabamos não valorizando as pessoas porque tudo nos parece fácil demais. Somente quando nos colocamos a certa...

Democracia na contemporaneidade: as nossas liberdades em perigo

Se por um lado, é na contemporaneidade que a democracia se tornou o regime político predominante no mundo, por outro, nessa mesma época os limites da democracia passaram a ser testados de uma forma perigosa. O curioso desse processo é que os instrumentos de liberdade conquistados graças ao regime democrático pleno vêm sendo utilizados para sabotar a própria democracia. Nesse sentido, buscarei apontar ao longo desta dissertação como a liberdade religiosa, a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa estão sendo subvertidas no mundo democrático contemporâneo e, mais especificamente, no Brasil. Ao final, buscarei traçar alguns caminhos possíveis para o enfrentamento desse enorme problema.  Inicialmente, no que se refere a liberdade de culto religioso, sabemos que essa grande conquista da democracia permite o convívio de inúmeras denominações religiosas. Entretanto, atualmente essa conquista está sendo colocada em risco por algumas religiões majoritárias que ocupam os espaços de ...

Tribunal Superior Eleitoral: o julgamento e a arte

O ministro Gilmar Mendes, ao votar pela absolvição da chapa Dilma-Temer em 2017, lembrou Américo Pisca-Pisca, personagem de Monteiro Lobato em O reformador do mundo . Américo tinha por hábito colocar defeito nas coisas, queria transformar o mundo conforme entendia ser necessário. Entretanto, quando percebe por meio de um sonho que as mudanças que deseja podem levá-lo a um final negativo, ele decide ser melhor que “Fique tudo como está, que está tudo muito bem”. Assim, para Gilmar não se pode mudar as “leis naturais” da política, pois se corre o risco de que as coisas fiquem piores do que estão. Ele adota uma posição conservadora, se negando a reformar o mundo e escolhendo por mantê-lo exatamente como está. O que ele espera é que adotemos a visão de que as atuais regras políticas foram criadas por certa mente superior a quem não nos cabe se opor. Em contraponto, a ministra Rosa Weber, ao votar pela cassação da chapa, prefere a canção de Torquato Neto, interpretada pela voz de Elis Regi...

Édipo Rei, de Sófocles: a ironia trágica em três atos

A obra Édipo Rei , de Sófocles, é composta de uma estética magnífica. Essa peça trágica grega conta a história de Édipo, rei de Tebas, assassino do seu próprio pai (Laio) e marido da própria mãe (Jocasta). Tudo isso devido a uma maldição imposta pelo deus Apolo. Estruturalmente, Édipo Rei apresenta uma coesão grandiosa, afinal, nada nesta peça é por acaso, sendo que todas as personagens têm uma função imprescindível para se desvendar o assassino de Laio (rei que antecedeu Édipo no trono de Tebas) e a consequente verdadeira identidade do próprio Édipo. Portanto, poderíamos tratar de infinitos temas relacionados a esta obra, como o enredo, a interferências dos deuses ou até mesmo a participação de alguma personagem em específico. Porém, escolhi tratar da ironia trágica, pois fiquei fascinado com a forma como Sófocles habilmente manejou esse recurso em Édipo Rei . Vale ressaltar que, para fins didáticos, irei abordar separadamente três pontos da obra nos quais Sófocles utiliza e...

A nova ordem: destrinchando a distopia brasileira de Kucinski

O romance A nova ordem (2019), de Bernardo Kucinski, é resultado direto da ascensão da extrema-direita no Brasil. A obra se utiliza da distopia para apresentar o país num futuro próximo se tornando uma ditadura governada por ideais militares e teocráticos. Nesse contexto, a narrativa passeia entre o absurdo e a realidade palpável, levando o leitor a perceber no seu cotidiano o prenúncio de dias catastróficos. É como se Kucinski nos dissesse: tudo isso não pode acontecer, mas já está acontecendo. Logo nas duas epígrafes iniciais, de Aldous Huxley e George Orwell, o leitor é colocado em contato com reflexões acerca da servidão na qual vivem as massas oprimidas. Isso serve de preparação para a realidade distópica que se avizinha. Nos parágrafos a seguir irei apresentar brevemente o que se encontra em cada um dos 22 capítulos que compõem o mais novo livro de Kucinski.  I. “A nova ordem proclama seu advento. O fechamento das universidades e a morte do pensamento crítico”: ne...