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Let the right one in: os dez anos de um filme inesquecível

“Tinha que ir e viver ou ficar e morrer”, escreve Eli em certo momento de Let the right one in . O filme, cujo título original sueco é Lat den ratte komma in (Deixa ela entrar), foi exibido pela primeira vez em 26 de janeiro de 2008, durante o festival de cinema de Gotemburgo. A história, baseada no livro homônimo do escritor John Ajvide Lindqvist, também serviu de base para o remake estadunidense Let me In (2010) e para diversas adaptações teatrais. Além disso, recentemente, a TNT tentou adaptar o enredo para um seriado, mas a produção foi cancelada após o piloto. Entretanto, deixemos um pouco de lado esses detalhes e foquemos nossa atenção na gélida versão cinematográfica sueca. Hoje, ela completa 10 anos desde que foi exibida pela primeira vez, por isso gostaria de falar um pouco sobre os motivos que fazem essa obra ser tão inesquecível. Na verdade, acho que nem sei explicar muito bem o quanto esse filme marcou a minha vida, tornando-se o meu favorito. Quando o assisti pela ...

Call me by your name: um questionamento sobre o amor

O cinema com temática homossexual vem crescendo nos últimos anos. Prova disso é que na última edição do Oscar tivemos Moonlight escolhido como melhor filme. Seguindo esse ritmo, nessa nova temporada do cinema, filmes com essa temática voltaram a ganhar força. Beach rats venceu melhor direção em Sundance e, agora, Call me by your name (Me chame pelo seu nome) vem conquistando fãs pelo mundo e sendo bem cotado nos festivais. O filme do diretor Luca Guadagnino é inspirado em um livro de André Aciman. A história, que se passa nos anos 80, é ambientada no interior da Itália durante uma temporada de veraneio. Elio (Timothée Chalamet) é um jovem garoto que se apaixona pelo acadêmico Oliver (Armie Hammer). Situado numa bela paisagem e com uma trilha sonora muito sensível, o longa encanta não apenas pela ousadia de tematizar uma relação homoafetiva entre pessoas com idades tão dispares, mas também pela maneira provocante como o faz. Nesse particular, me refiro especialmente a duas seq...

Esperando o Papai Noel: um conto autobiográfico

Era véspera de Natal e, como todos sabem, é justamente nesse dia que o Papai Noel visita as criancinhas para lhes entregar o presente tão aguardado. Eu tinha uns seis ou sete anos, não consigo lembrar muito bem. Sei apenas que estava na casa da minha avó e brincava com os seus prendedores de estender roupa. Em minhas mãos, eles se transformavam em seres poderosos, capazes de lutar contra todo o mal e, quando a situação se complicava, eles se uniam em um único corpo para poder superar a adversidade. Minhas tardes na casa de minha avó eram sempre embaladas nesse solitário mundo de guerras. Mas naquele dia 24 de dezembro, as coisas foram um pouco diferentes. Muito mais do que esperar o nascimento do menino Jesus, aguardava ansioso a vinda do Papai Noel. Esperava a chegada do bom velhinho que havia de vir ainda naquele dia, pelo menos era isso que minha mãe dissera. Ela, o meu pai e os meus avós não sabiam em que horário o Papai Noel havia de chegar, mas aguardávamos todos por sua ...

Eduardo Giannetti: nada em excesso, inclusive na moderação

Vejamos o que escreve Eduardo Giannetti nesse trecho de Trópicos utópicos  para que depois possamos comentar: " Nada em excesso. – A inscrição no templo de Apolo em Delfos, centro religioso e geográfico do mundo grego, abriga uma peculiar instabilidade lógica. Submeta o 'nada em excesso' à sua própria imagem no espelho: a injunção moduladora do princípio da moderação também se aplica reflexivamente a si mesma? É possível exceder-se e ir longe demais no intento de nunca ir demasiado longe; de nunca ultrapassar a certa e sóbria medida? É possível, enfim, pecar por excesso de moderação? Ao mirar-se no espelho, a força moduladora do preceito délfico se vê compelida a baixar o tom e moderar a si mesma: nada em excesso , inclusive na moderação. – Mas isso não é tudo. Ao argumento lógico podemos acrescentar um complemento ético. Como saber até onde ir ? Como descobrir a justa medida? Se nunca testarmos os limites, jamais teremos condições de determiná-los, visto que só aquel...

Cabo de guerra: romance de Ivone Benedetti reflete sobre a ditadura no Brasil

Doutora pela USP e tradutora reconhecida, Ivone Benedetti estreou na literatura com o romance Immaculada (2009) e com o livro de contos Tenho um cavalo alfaraz (2011). Agora, ela volta à cena literária com Cabo de guerra (2016), romance que tematiza a ditadura civil-militar brasileira. De modo crítico e realista, ela se propõe a rememorar o passado e discutir as marcas deixadas por ele e ainda presentes no Brasil atual. A narrativa conta a história de um sem-nome que não tem opinião própria nem destino definido. Ele narra sua própria história no transcorrer de três dias, os quais dividem o romance: no primeiro dia, a rememoração dedica-se prioritariamente a tratar da chegada do protagonista em São Paulo e das amizades que ele estabele com jovens de esquerda; já no segundo dia, a maior parte das lembranças é de sua atuação como infiltrado, levando informações para os militares; e no terceiro dia, por fim, o foco maior é em destacar a tentativa fracassada de reconstituir a sua ...

Espionagem no futebol: limites e consequências

A ESPN Brasil fez uma reportagem mostrando que o Grêmio tinha um funcionário responsável por espionar os adversários. Ele usava até drone para gravar imagens dos treinos fechados. Primeira reação: a torcida do Grêmio e um representante do clube dizem que se trata de uma matéria fraca, vazia, apenas fruto da perseguição da impressa do sudeste tentando atrapalhar o clube na final da Libertadores 2017.  Segunda reação: Renato Gaúcho, treinador do time, admite o uso desse expediente, mas justifica dizendo que todos os clubes fazem isso, que a espionagem é antiga, que futebol é uma guerra e que o mundo é dos mais espertos.  Qualquer semelhança com nosso cotidiano político e social não é mera coincidência. O futebol é apenas mais um lugar onde se vê a cultura do brasileiro. A melhor defesa é sempre o ataque, mas quando ele não dá certo se recorre a generalização: já que todos fazem, eu posso. Até onde vai o limite para conseguirmos aquilo que queremos? Vale engana...

Beach rats: a verdade é despretensiosa

O filme Beach rats (Ratos de praia, 2017) começa com o jovem Frankie (Harris Dickinson) se fotografando no espelho, ainda envergonhado conversando com homens mais velhos pela internet, ele se encoraja e finalmente pede para ver um deles nu. Depois, vêm os fogos de artifício. Uma garota, que será sua futura namorada, olha para ele e comenta o quanto aquele brilho no céu é romântico. Frankie discorda e a moça então questiona: “qual é sua ideia de romance?”. Ele se silencia. Os fogos serão uma importante metáfora imagética ao longo do filme, sendo retrados também na tela do computador do rapaz. Na última cena do filme Frankie retorna para esse mesmo cenário, promovendo a percepção de que o questionamento feito a ele ainda permanece sem resposta. Ele ainda busca entender seus desejos sexuais. Os fogos de artifício servem para metaforizar a adolescência e juventude, mas fora da percepção típica do senso comum. Para além de uma época em que os desejos estão à flor da pele e em que se...