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A modernidade em Clarice Lispector: comentário sobre A paixão segundo G. H.

“Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada”, diz Clarice Lispector na abertura de um dos seus principais romances. Nesse texto, respondendo a uma questão da prova de “Tópicos da narrativa brasileira”, comento superficialmente sobre o romance A paixão segundo G. H. , de Clarice Lispector. De maneira mais específica, busco delimitar em que aspectos estruturais (personagens, tempo, enredo, espaço e narrador) essa obra quebra com os padrões convencionais da narrativa tradicional. Transcrevo, com algumas pequenas alterações, o que escrevi. É perceptível que o romance A paixão segundo G. H. , de Clarice Lispector, rompe com a tradição literária, situando-se dentro do ambiente modernista da literatura. Mas quais características presentes nessa narrativa nos permitem fazer essa afirmação? A primeira característica é a mudança no foco narrativo da história. Ao contrário dos romances tradicionais que apresentam um...

I Origins: de quantos sentidos podemos ser feitos

Há uma cena no filme I Origins (O universo no olhar, 2014) que me produziu algumas reflexões sobre a relação entre ciência e religião. Sofi, uma jovem profundamente espiritualizada, conversa com seu namorado Ian, um cientista ateu que estuda os olhos, sobre as diferentes capacidades de percepção. Segue abaixo o diálogo na íntegra entre esse casal que protagoniza o filme: Ian : O que foi? Eu sei que algo está errado, então... Sofi : Você me deixa todo dia para torturar minhoquinhas? Ian : Não estamos torturando minhocas, Sofi. Se te interessa, estamos modificando organismos. Nesse caso, são minhocas para terem visão. Sofi : Pode fazer minhocas cegas enxergarem? Ian : Mais ou menos. Podemos agora, talvez. Sofi : Acha que é uma boa ideia? Ian : Acha que é uma má ideia? Sofi : Acho que é perigoso brincar de Deus. Ian : Sofi, eu acredito em prova. Não há nenhuma prova que há algum espírito mágico... Que é invisível, vivendo acima de nós, bem em cima de nós. Sofi : ...

Noruega: os motivos para o sucesso olímpico desse pequeno país nórdico

Esse foi o primeiro ano que tive a oportunidade de acompanhar a Olimpíada de Inverno com um pouco mais de atenção. Impossível não se apaixonar por esportes tão emocionantes como o snowboard, a patinação de velocidade, o biatlo e até mesmo o curling, que virou o queridinho dos brasileiros. Ao final das competições, a Noruega terminou na primeira colocação do quadro de medalhas e continua sendo a nação com os melhores resultados. Nessa edição, o país conseguiu um número recorde de medalhas: 39 no total (14 de ouro, 14 de prata e 11 de bronze). O grande destaque foi a veterana Marit Bjoergen que no esqui cross-country chegou a sua 15ª medalha, tornando-se assim a atleta mais premiada na história das Olimpíadas de Inverno.   “Nós nascemos com esquis nos pés”, afirma com propriedade o ditado popular norueguês. Por isso, mesmo com uma população que não chega a seis milhões de habitantes, a Noruega foi a grande vencedora da Olimpíada de Inverno realiada na Coreia do Sul. É bem...

Let the right one in: os dez anos de um filme inesquecível

“Tinha que ir e viver ou ficar e morrer”, escreve Eli em certo momento de Let the right one in . O filme, cujo título original sueco é Lat den ratte komma in (Deixa ela entrar), foi exibido pela primeira vez em 26 de janeiro de 2008, durante o festival de cinema de Gotemburgo. A história, baseada no livro homônimo do escritor John Ajvide Lindqvist, também serviu de base para o remake estadunidense Let me In (2010) e para diversas adaptações teatrais. Além disso, recentemente, a TNT tentou adaptar o enredo para um seriado, mas a produção foi cancelada após o piloto. Entretanto, deixemos um pouco de lado esses detalhes e foquemos nossa atenção na gélida versão cinematográfica sueca. Hoje, ela completa 10 anos desde que foi exibida pela primeira vez, por isso gostaria de falar um pouco sobre os motivos que fazem essa obra ser tão inesquecível. Na verdade, acho que nem sei explicar muito bem o quanto esse filme marcou a minha vida, tornando-se o meu favorito. Quando o assisti pela ...

Call me by your name: um questionamento sobre o amor

O cinema com temática homossexual vem crescendo nos últimos anos. Prova disso é que na última edição do Oscar tivemos Moonlight escolhido como melhor filme. Seguindo esse ritmo, nessa nova temporada do cinema, filmes com essa temática voltaram a ganhar força. Beach rats venceu melhor direção em Sundance e, agora, Call me by your name (Me chame pelo seu nome) vem conquistando fãs pelo mundo e sendo bem cotado nos festivais. O filme do diretor Luca Guadagnino é inspirado em um livro de André Aciman. A história, que se passa nos anos 80, é ambientada no interior da Itália durante uma temporada de veraneio. Elio (Timothée Chalamet) é um jovem garoto que se apaixona pelo acadêmico Oliver (Armie Hammer). Situado numa bela paisagem e com uma trilha sonora muito sensível, o longa encanta não apenas pela ousadia de tematizar uma relação homoafetiva entre pessoas com idades tão dispares, mas também pela maneira provocante como o faz. Nesse particular, me refiro especialmente a duas seq...

Esperando o Papai Noel: um conto autobiográfico

Era véspera de Natal e, como todos sabem, é justamente nesse dia que o Papai Noel visita as criancinhas para lhes entregar o presente tão aguardado. Eu tinha uns seis ou sete anos, não consigo lembrar muito bem. Sei apenas que estava na casa da minha avó e brincava com os seus prendedores de estender roupa. Em minhas mãos, eles se transformavam em seres poderosos, capazes de lutar contra todo o mal e, quando a situação se complicava, eles se uniam em um único corpo para poder superar a adversidade. Minhas tardes na casa de minha avó eram sempre embaladas nesse solitário mundo de guerras. Mas naquele dia 24 de dezembro, as coisas foram um pouco diferentes. Muito mais do que esperar o nascimento do menino Jesus, aguardava ansioso a vinda do Papai Noel. Esperava a chegada do bom velhinho que havia de vir ainda naquele dia, pelo menos era isso que minha mãe dissera. Ela, o meu pai e os meus avós não sabiam em que horário o Papai Noel havia de chegar, mas aguardávamos todos por sua ...

Eduardo Giannetti: nada em excesso, inclusive na moderação

Vejamos o que escreve Eduardo Giannetti nesse trecho de Trópicos utópicos  para que depois possamos comentar: " Nada em excesso. – A inscrição no templo de Apolo em Delfos, centro religioso e geográfico do mundo grego, abriga uma peculiar instabilidade lógica. Submeta o 'nada em excesso' à sua própria imagem no espelho: a injunção moduladora do princípio da moderação também se aplica reflexivamente a si mesma? É possível exceder-se e ir longe demais no intento de nunca ir demasiado longe; de nunca ultrapassar a certa e sóbria medida? É possível, enfim, pecar por excesso de moderação? Ao mirar-se no espelho, a força moduladora do preceito délfico se vê compelida a baixar o tom e moderar a si mesma: nada em excesso , inclusive na moderação. – Mas isso não é tudo. Ao argumento lógico podemos acrescentar um complemento ético. Como saber até onde ir ? Como descobrir a justa medida? Se nunca testarmos os limites, jamais teremos condições de determiná-los, visto que só aquel...