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A nova ordem: destrinchando a distopia brasileira de Kucinski

O romance A nova ordem (2019), de Bernardo Kucinski, é resultado direto da ascensão da extrema-direita no Brasil. A obra se utiliza da distopia para apresentar o país num futuro próximo se tornando uma ditadura governada por ideais militares e teocráticos. Nesse contexto, a narrativa passeia entre o absurdo e a realidade palpável, levando o leitor a perceber no seu cotidiano o prenúncio de dias catastróficos. É como se Kucinski nos dissesse: tudo isso não pode acontecer, mas já está acontecendo. Logo nas duas epígrafes iniciais, de Aldous Huxley e George Orwell, o leitor é colocado em contato com reflexões acerca da servidão na qual vivem as massas oprimidas. Isso serve de preparação para a realidade distópica que se avizinha. Nos parágrafos a seguir irei apresentar brevemente o que se encontra em cada um dos 22 capítulos que compõem o mais novo livro de Kucinski.  I. “A nova ordem proclama seu advento. O fechamento das universidades e a morte do pensamento crítico”: ne...

Virada de ano: balanço e perspectivas

Pensei em escrever sobre o fim de 2019 e o início de 2020 porque nessa virada de ano sinto que as coisas estão ainda mais incompletas para mim. Gostaria de falar delas sem falar delas, isto é, contar sobre coisas íntimas para mim sem expor a singularidade de cada uma. Eu sei que é complicado, mas essa é a única forma possível para mim. Nesse novo ano completo 25 anos de idade e isso significa que, fazendo uma previsão permeada de realismo e um pouco de otimismo, ainda terei meio século de vida pela frente. Isso parece muito, mas sinto que a cada ano o tempo passa mais rápido. É preciso agir! Nesse período já vivido consegui avançar com alguns sonhos importantes, mas outros permanecem em suspenso e a cada dia que passa sinto que estão mais distantes. Coisas conquistadas não me deixam mais tão feliz como antes e coisas desejadas parecem cada dia ser mais necessárias para que eu me sinta realizado. Isso meio que faz parte da natureza humana, estamos sempre em busca do novo por ...

Manifestações populares e AI-5: paranoia ou desejo incontido

O núcleo duro do governo Bolsonaro é formado por pessoas com claras inclinações autoritárias. Pouco afeitos as regras democráticas e as suas instituições, o presidente, seus filhos, a ala olavista e até os liberais da economia estão sempre produzindo falas e ações que põe em dúvida a democracia como um valor máximo. Nas últimas semanas foi a vez do filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, afirmar que, se a esquerda radicalizar, será preciso recorrer a instrumentos como o AI-5. O Ato Institucional mais duro e repressor da ditadura civil-militar também foi parar na boca do ministro da Economia Paulo Guedes, fazendo com que a sociedade se confrontasse novamente com o fantasma da ditadura.  Mas, afinal, o que leva membros do governo a citar constantemente mecanismos autoritários como o AI-5? Seria uma paranoia generalizada do governo, que se vê cercado diariamente por inimigos ameaçando tomar o poder? Ou seria um desejo incontido de, citando manifestações populares vio...

Resenha crítica: O socialismo e o homem novo em Cuba, de Che Guevara

Apresentado na segunda parte da obra Outras modernidades , a carta de Che Guevara intitulada “O socialismo e o homem novo em Cuba” foi enviada para Carlos Quijano.  A luta de Ernesto Che Guevara em favor dos oprimidos começou após ele conhecer a pobreza latino-americana durante uma viagem pela região. Posteriormente, Guevara se tornou um dos líderes da Revolução Cubana, promoveu tentativas revolucionárias na África e terminou morto enquanto participava da luta armada como guerrilheiro. Nessa carta, o líder revolucionário argentino busca contestar a tese dos capitalistas segundo a qual o socialismo abole o indivíduo para assegurar a soberania do Estado. Para isso, ele usa como exemplo a revolução realizada por Fidel Castro em Cuba. Trata-se, portanto, de uma reflexão sobre a atuação do socialismo revolucionário e suas formas de aperfeiçoamento. Inicialmente, Guevara explica que a origem do socialismo está associada a primeira tentativa de Fidel Castro assumir o poder em Cuba....

Resenha crítica: O voto ou a bala, de Malcolm X

Apresentado na primeira parte da obra Outras modernidades (2009), o discurso de Malcolm X intitulado “O voto ou a bala” foi proferido na cidade de Cleveland em 1964. Malcolm X pertenceu a Nação do Islã (NOI), uma vertente mulçumana que acreditava na superioridade negra e no caráter imutável da maldade branca. No entanto, diversas experiências ao longo da vida levaram-no a rever suas posições e acreditar na possibilidade da convivência pacífica entre negros e brancos. Nesse discurso, Malcolm X denuncia a persistência da segregação negra nos Estados Unidos e destaca o empoderamento racial como sendo o único meio possível dos negros terem acesso pleno aos Direitos Civis. Trata-se, portanto, de um discurso proferido num contexto político e social no qual, apesar dos avanços ocorridos ao longo da história americana, a discriminação contra as comunidades negras ainda era enorme. Em termos de conteúdo, o discurso de Malcolm X foca sua atenção no processo eleitoral de 1964, uma vez que...

Coca-Cola: o signo do poder em uma propaganda

O presente trabalho visa analisar a fotografia de uma campanha publicitária canadense realizada pela agência de publicidade MacLaren McCann . Tal campanha, intitulada “Straw, Billboard”, foi realizada em 2010 e, se utilizando de uma linguagem bastante criativa, buscou promover a marca Coca-Cola por meio de outdoors. Para a análise dessa fotografia, iremos utilizar alguns conceitos da semiótica, como hipotaxe e parataxe, signo e interpretante, entre outros. Como se trata de uma propaganda, já inicialmente, precisamos ter consciência de que os elementos foram postos com o intuito de construir um signo positivo a respeito da Coca-Cola, sendo assim, o principal objetivo é promover a marca e ampliar o consumo da bebida. Para isso, percebemos que há uma relação de hipotaxe entre as partes, uma vez que as três imagens presentes na propaganda estabelecem uma relação de contiguidade, em que uma se subordina a outra para que, todas juntas, construam o sentido da publicidade. Vemos tam...

Utoya: um plano-sequência sobre o terrorismo na Noruega

A Noruega, assim como os demais países nórdicos, costumeiramente é lembrada por causa de sua qualidade de vida e de sua democracia consolidada. Porém, recentemente, o terrorismo que deixou em alerta toda a Europa, também abalou fortemente o cotidiano norueguês.  O filme Utoya (2018) retrata justamente o ataque terrorista ocorrido em 22 de julho de 2011. Primeiramente, uma bomba foi explodida no centro de Oslo e, em seguida, um terrorista atacou a tiros centenas de jovens que estavam na ilha de Utoya participando de um evento do Partido Trabalhista. O brilhantismo desse filme está no uso que ele faz do plano-sequência. Durante quase toda a ação não perdemos de vista a jovem Kaja (Andrea Berntzen). Ela sonha em ser eleita e se tornar parlamentar. Mas em Utoya, além de fugir do terrorista que promove o ataque, Kaja procura por sua irmã Emilie e tenta ajudar algumas pessoas que encontra pelo caminho.  Já no primeiro momento em que ela surge na tela, sugere-se uma c...