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Democracia na contemporaneidade: as nossas liberdades em perigo

Se por um lado, é na contemporaneidade que a democracia se tornou o regime político predominante no mundo, por outro, nessa mesma época os limites da democracia passaram a ser testados de uma forma perigosa. O curioso desse processo é que os instrumentos de liberdade conquistados graças ao regime democrático pleno vêm sendo utilizados para sabotar a própria democracia. Nesse sentido, buscarei apontar ao longo desta dissertação como a liberdade religiosa, a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa estão sendo subvertidas no mundo democrático contemporâneo e, mais especificamente, no Brasil. Ao final, buscarei traçar alguns caminhos possíveis para o enfrentamento desse enorme problema.  Inicialmente, no que se refere a liberdade de culto religioso, sabemos que essa grande conquista da democracia permite o convívio de inúmeras denominações religiosas. Entretanto, atualmente essa conquista está sendo colocada em risco por algumas religiões majoritárias que ocupam os espaços de ...

Tribunal Superior Eleitoral: o julgamento e a arte

O ministro Gilmar Mendes, ao votar pela absolvição da chapa Dilma-Temer em 2017, lembrou Américo Pisca-Pisca, personagem de Monteiro Lobato em O reformador do mundo . Américo tinha por hábito colocar defeito nas coisas, queria transformar o mundo conforme entendia ser necessário. Entretanto, quando percebe por meio de um sonho que as mudanças que deseja podem levá-lo a um final negativo, ele decide ser melhor que “Fique tudo como está, que está tudo muito bem”. Assim, para Gilmar não se pode mudar as “leis naturais” da política, pois se corre o risco de que as coisas fiquem piores do que estão. Ele adota uma posição conservadora, se negando a reformar o mundo e escolhendo por mantê-lo exatamente como está. O que ele espera é que adotemos a visão de que as atuais regras políticas foram criadas por certa mente superior a quem não nos cabe se opor. Em contraponto, a ministra Rosa Weber, ao votar pela cassação da chapa, prefere a canção de Torquato Neto, interpretada pela voz de Elis Regi...

Édipo Rei, de Sófocles: a ironia trágica em três atos

A obra Édipo Rei , de Sófocles, é composta de uma estética magnífica. Essa peça trágica grega conta a história de Édipo, rei de Tebas, assassino do seu próprio pai (Laio) e marido da própria mãe (Jocasta). Tudo isso devido a uma maldição imposta pelo deus Apolo. Estruturalmente, Édipo Rei apresenta uma coesão grandiosa, afinal, nada nesta peça é por acaso, sendo que todas as personagens têm uma função imprescindível para se desvendar o assassino de Laio (rei que antecedeu Édipo no trono de Tebas) e a consequente verdadeira identidade do próprio Édipo. Portanto, poderíamos tratar de infinitos temas relacionados a esta obra, como o enredo, a interferências dos deuses ou até mesmo a participação de alguma personagem em específico. Porém, escolhi tratar da ironia trágica, pois fiquei fascinado com a forma como Sófocles habilmente manejou esse recurso em Édipo Rei . Vale ressaltar que, para fins didáticos, irei abordar separadamente três pontos da obra nos quais Sófocles utiliza e...

A nova ordem: destrinchando a distopia brasileira de Kucinski

O romance A nova ordem (2019), de Bernardo Kucinski, é resultado direto da ascensão da extrema-direita no Brasil. A obra se utiliza da distopia para apresentar o país num futuro próximo se tornando uma ditadura governada por ideais militares e teocráticos. Nesse contexto, a narrativa passeia entre o absurdo e a realidade palpável, levando o leitor a perceber no seu cotidiano o prenúncio de dias catastróficos. É como se Kucinski nos dissesse: tudo isso não pode acontecer, mas já está acontecendo. Logo nas duas epígrafes iniciais, de Aldous Huxley e George Orwell, o leitor é colocado em contato com reflexões acerca da servidão na qual vivem as massas oprimidas. Isso serve de preparação para a realidade distópica que se avizinha. Nos parágrafos a seguir irei apresentar brevemente o que se encontra em cada um dos 22 capítulos que compõem o mais novo livro de Kucinski.  I. “A nova ordem proclama seu advento. O fechamento das universidades e a morte do pensamento crítico”: ne...

Virada de ano: balanço e perspectivas

Pensei em escrever sobre o fim de 2019 e o início de 2020 porque nessa virada de ano sinto que as coisas estão ainda mais incompletas para mim. Gostaria de falar delas sem falar delas, isto é, contar sobre coisas íntimas para mim sem expor a singularidade de cada uma. Eu sei que é complicado, mas essa é a única forma possível para mim. Nesse novo ano completo 25 anos de idade e isso significa que, fazendo uma previsão permeada de realismo e um pouco de otimismo, ainda terei meio século de vida pela frente. Isso parece muito, mas sinto que a cada ano o tempo passa mais rápido. É preciso agir! Nesse período já vivido consegui avançar com alguns sonhos importantes, mas outros permanecem em suspenso e a cada dia que passa sinto que estão mais distantes. Coisas conquistadas não me deixam mais tão feliz como antes e coisas desejadas parecem cada dia ser mais necessárias para que eu me sinta realizado. Isso meio que faz parte da natureza humana, estamos sempre em busca do novo por ...

Manifestações populares e AI-5: paranoia ou desejo incontido

O núcleo duro do governo Bolsonaro é formado por pessoas com claras inclinações autoritárias. Pouco afeitos as regras democráticas e as suas instituições, o presidente, seus filhos, a ala olavista e até os liberais da economia estão sempre produzindo falas e ações que põe em dúvida a democracia como um valor máximo. Nas últimas semanas foi a vez do filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, afirmar que, se a esquerda radicalizar, será preciso recorrer a instrumentos como o AI-5. O Ato Institucional mais duro e repressor da ditadura civil-militar também foi parar na boca do ministro da Economia Paulo Guedes, fazendo com que a sociedade se confrontasse novamente com o fantasma da ditadura.  Mas, afinal, o que leva membros do governo a citar constantemente mecanismos autoritários como o AI-5? Seria uma paranoia generalizada do governo, que se vê cercado diariamente por inimigos ameaçando tomar o poder? Ou seria um desejo incontido de, citando manifestações populares vio...

Resenha crítica: O socialismo e o homem novo em Cuba, de Che Guevara

Apresentado na segunda parte da obra Outras modernidades , a carta de Che Guevara intitulada “O socialismo e o homem novo em Cuba” foi enviada para Carlos Quijano.  A luta de Ernesto Che Guevara em favor dos oprimidos começou após ele conhecer a pobreza latino-americana durante uma viagem pela região. Posteriormente, Guevara se tornou um dos líderes da Revolução Cubana, promoveu tentativas revolucionárias na África e terminou morto enquanto participava da luta armada como guerrilheiro. Nessa carta, o líder revolucionário argentino busca contestar a tese dos capitalistas segundo a qual o socialismo abole o indivíduo para assegurar a soberania do Estado. Para isso, ele usa como exemplo a revolução realizada por Fidel Castro em Cuba. Trata-se, portanto, de uma reflexão sobre a atuação do socialismo revolucionário e suas formas de aperfeiçoamento. Inicialmente, Guevara explica que a origem do socialismo está associada a primeira tentativa de Fidel Castro assumir o poder em Cuba....