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Coca-Cola: o signo do poder em uma propaganda

O presente trabalho visa analisar a fotografia de uma campanha publicitária canadense realizada pela agência de publicidade MacLaren McCann . Tal campanha, intitulada “Straw, Billboard”, foi realizada em 2010 e, se utilizando de uma linguagem bastante criativa, buscou promover a marca Coca-Cola por meio de outdoors. Para a análise dessa fotografia, iremos utilizar alguns conceitos da semiótica, como hipotaxe e parataxe, signo e interpretante, entre outros. Como se trata de uma propaganda, já inicialmente, precisamos ter consciência de que os elementos foram postos com o intuito de construir um signo positivo a respeito da Coca-Cola, sendo assim, o principal objetivo é promover a marca e ampliar o consumo da bebida. Para isso, percebemos que há uma relação de hipotaxe entre as partes, uma vez que as três imagens presentes na propaganda estabelecem uma relação de contiguidade, em que uma se subordina a outra para que, todas juntas, construam o sentido da publicidade. Vemos tam...

Utoya: um plano-sequência sobre o terrorismo na Noruega

A Noruega, assim como os demais países nórdicos, costumeiramente é lembrada por causa de sua qualidade de vida e de sua democracia consolidada. Porém, recentemente, o terrorismo que deixou em alerta toda a Europa, também abalou fortemente o cotidiano norueguês.  O filme Utoya (2018) retrata justamente o ataque terrorista ocorrido em 22 de julho de 2011. Primeiramente, uma bomba foi explodida no centro de Oslo e, em seguida, um terrorista atacou a tiros centenas de jovens que estavam na ilha de Utoya participando de um evento do Partido Trabalhista. O brilhantismo desse filme está no uso que ele faz do plano-sequência. Durante quase toda a ação não perdemos de vista a jovem Kaja (Andrea Berntzen). Ela sonha em ser eleita e se tornar parlamentar. Mas em Utoya, além de fugir do terrorista que promove o ataque, Kaja procura por sua irmã Emilie e tenta ajudar algumas pessoas que encontra pelo caminho.  Já no primeiro momento em que ela surge na tela, sugere-se uma c...

Elogio à infância: reflexão antiga

Bom mesmo era o tempo em que os Teletubbies tinham graça. Em que eu corria na chuva sem medo de raio ou resfriado. Em que a nudez era natural e aceitável. Em que eu não precisava me preocupar com calendário, calculadora e dinheiro. Não existiam compromissos, exceto com a diversão. Eu não precisava ficar marcando o tempo, contando os dias para as férias e aos poucos me acostumando a moldar minhas ações de acordo com as expectativas dos outros. Bom mesmo era o tempo em que tudo era pureza, não havia ambição, falsidade ou inveja. Em que pensamentos impuros não perturbavam minha mente. Em que eu brincava, brigava, mas já no outro dia fazia as pazes. Em que a minha imaginação me levava sempre ao lugar certo. Em que eu não precisava ficar projetando meu futuro, mas apenas vivenciando intensamente meu presente. Mas bom mesmo era se um dia tudo isso voltasse, acho que aproveitaria mais por saber que teria fim, pois na minha infância eu não pensava no fim. Hoje sei que a infância não...

A casa de Alice: um microcosmo do Brasil contemporâneo

A casa de Alice (2007), enquanto metonímia do Brasil onde vivemos, está longe de ser uma maravilha. É essa a constatação a que chegamos ao assistir o primeiro longa-metragem de Chico Teixeira, diretor também de Ausência (2015). Durante cerca de 90 minutos conhecemos a vida da manicure Alice, de seu marido taxista Lindomar, dos seus filhos Lucas, Edinho e Júnior, além da avó materna Jacira. Todos vivem numa mesma casa e demonstram uma crescente omissão em relação aos problemas dos outros. Enquanto cuida dos afazeres domésticos, Jacira percebe tudo que transcorre no seio familiar, mesmo tendo grave problema de visão. Desde a traição de Lindomar com uma garota da vizinhança, passando pela prostituição do filho mais velho, Lucas, até a latência sexual que se estabelece entre este e o filho mais novo, Júnior. Lucas, contrariando o estereótipo de militar, se prostitui em relações homossexuais e, ao mesmo tempo, demonstra muita proximidade com o irmão mais novo. Ele tem ciúmes da...

O fantasma de Buñuel: juventude e ditadura na obra de Maria José Silveira

Entre os romances contemporâneos que se propuseram a tematizar os anos de ditadura civil-militar e suas consequências, o romance O fantasma de Buñuel (2004), da autora goiana Maria José Silveira, é inegavelmente um dos mais representativos. A narrativa foca seu olhar em um grupo de cinco jovens que estudava na UnB e tinha nos filmes de Luis Buñuel uma paixão em comum. Cada um dos jovens é focalizado em uma das partes da narrativa e suas reflexões são feitas a partir de épocas distintas, conforme podemos perceber já no título dessas partes: “1968 - Edu: A noite do princípio”, “1978 - Tadeu: Os arautos negros”, “1988 - Dina: O clico das águas”, “1998 - Tonho: As metamorfoses” e “2003 - Esmeralda: A manhã do fim”. É curioso observar como, ao longo da narrativa, o foco em um dos personagens vai ajudando o leitor a ter uma visão mais completa dos demais. Isso porque, mesmo a obra alternando entre narradores de primeira pessoa (os jovens) e um narrador de terceira pessoa (onisciente)...

As Meninas: iniciando a leitura do romance de Lygia Fagundes Telles

Escrevi as anotações abaixo enquanto lia pela primeira vez à obra As meninas (1973), de Lygia Fagundes Telles. O resultado é uma espécie de diário de leitura que comenta a primeira das 12 partes que formam o romance. Curiosa demais essa parte um do romance. O foco narrativo fica alternando entre a primeira e a terceira pessoa. Na maior parte do tempo a narrativa é em primeira pessoa, mas ora é a personagem Lorena (apelido Lena) quem conta a história, outra ora é a personagem Lia (apelido Lião). É preciso um pouco de atenção para perceber essas alternâncias no foco narrativo. Porém, no geral, esse é um recurso muito interessante, pois permite que nós leitores vejamos as personagens sobre diversas perspectivas. Pelo que entendi as meninas moram em uma pensão dirigida por freiras. Lorena Vaz Leme e Lia de Melo Schultz são bem próximas, apesar de terem personalidades completamente diferentes. Lorena é cristã, cheia de luxos e aparentemente tem uma boa condição financeira fornecida...

The Dreamers: o destino de Matthew no romance de Gilbert Adair

Entre os filmes que marcaram minha adolescência e juventude, The Dreamers (Os sonhadores, 2003) de Bernardo Bertolucci está na minha trilogia de favoritos, juntamente com Deixa ela entrar e O leitor . O filme conta a trajetória dos gêmios Théo e Isabelle e a forte relação estabelecida entre eles e o estudante estadunidense Matthew. Tudo ocorre após a cinemateca parisiense que frequentavam ser fechada. Com os pais ausentes, os irmãos e seu novo amigo trancam-se dentro de casa e, enquanto participam de um caprichoso jogo cinéfilo e sexual, permanecem completamente indiferentes a toda a agitação social que se produzia na França de 1968. Acordados com uma pedra que invade o grande apartamento, os jovens finalmente saem pra a rua e descobrem assustados tudo que estava ocorrendo. No filme, vemos ao final o casal de gêmios se separando de Matthew em meio à confusão, pois o jovem estrangeiro não deseja participar dos atos de violência. Esse enredo cinematográfico de The Dreamers é bas...